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  Colunistas
José Luiz Alquéres
COLUNISTA

  

Incêndios, demolições e degradação do caráter

 

José Luiz Alqueres - empresário

 Mil anos depois de ter atingido 1 milhão de habitantes no auge do Império Romano, a cidade de Roma estava reduzida a apenas 50.000 habitantes. Ela foi decaindo, perdendo suas referências e ficando um burgo de importância menor. Mesmo o fato de sediar o papado não a salvou desta sina. Os papas pouco lá ficavam, muitos mais preocupados com seus poderes temporais do que espirituais, tendo mesmo, numa ocasião, o papado se transferido, a contragosto, para Avignon na França.

Lembro este fato para dizer que, assim como as pessoas, as cidades podem definhar e morrer. Roma até recuperou-se a partir do século XV mas apenas quando voltou a ser capital do reino unificado da Itália, já em meados do século XIX, voltou a ter peso político e econômico significativos. Naquela ocasião, o Rei da Itália, antigo Rei do Piemonte, recebeu a cidade de Garibaldi. Este, um revolucionário,  herói da independência italiana, antigo guerrilheiro na nossa Revolução Farroupilha, havia conquistado Roma com a sua tropa de voluntários.

Roma já não era mais a bela cidade imperial. Era uma série de ruínas intercaladas por habitações de todo tipo. Teriam os bárbaros invasores e os muitos cercos e guerras destruídos como ainda hoje é a primeira idéia de quem a vê?  

Decididamente não. Roma foi destruída pelos seus habitantes ao longo de séculos. Governo respeitável não havia, o poder entregue  a  sargentões pretorianos, os milicianos de então, sucedidos por condottieres - a jagunçada italiana - que a governaram como é típico destes ignorantes, sem o menor respeito por sua cultura. 

Os habitantes entregues à sua sorte e sem senso de futuro ou de passado,  foram quebrando uma coluna aqui, uma parede acolá e levando os materiais para fazer suas casas. Assim canibalizada, pouco restou do seu antigo esplendor.

Nós aqui, qual os romanos, estamos a proceder da mesma forma , não respeitando o nosso patrimônio natural, histórico, artístico e cultural. São verdadeiros atentados diários que assistimos sob o complacente olhar do poder publico. Apenas para lembrar alguns exemplos  o patrimônio natural sofre com a invasão das faixas marginais das rodovias, nossas florestas são devastadas em conluio de criminosos com ministros,.admite-se sem qualquer ação o desvirtuamento de fachadas e do espaço urbanístico por toda parte. 

Mesmo as instituições culturais que poderiam ser as zeladoras da história e o grande fulcro de um novo estágio de desenvolvimento da cidade mal sobrevivem em grande penúria. 

Marco dos tempos, algumas destas instituições têm visto os seus acervos incinerados, qual simbólicas piras funerárias de uma época passada que valorizava mais a cultura São Paulo ha alguns anos assistiu na Estação da Luz, o incêndio do Museu da Língua Portuguesa. Deste não restou nada. Um grande esforço de algumas dezenas de milhões de reais aportados pela EDP- Eletricidade de Portugal e FRM - Fundação Roberto Marinho, entidades privadas, vem de reinaugura-lo.  

Estas duas instituições, em conjunto com o Estado de São Paulo, estão renovando e reconstruindo acessos e espaços públicos no Museu do Ipiranga, a tempo de reinaugura-lo para as comemorações do 2º centenário da nossa independência.

No incêndio também perdemos um enorme acervo e boa parte do edifício do Museu Histórico Nacional da Quinta da Boa Vista. A causa, um curto circuito e a falta de instalações adequadas de proteção a incêndio. Este parece ser também o problema da Cinemateca Brasileira em São Paulo, que nesta semana perdeu em fogo devastador uma importante parte do seu acervo, guardado sem manutenção adequada, por falta de verbas,  em galpões na zona leste de São Paulo.

Espero que isto desperte a imediata elaboração de diagnósticos e projetos em todas as casas que abrigam acervos importantes no Brasil e também aqui em Petrópolis.

O maior problema da destruição destes marcos culturais é o golpe mortal que desferem no caráter dos habitantes que  perdem testemunhos do seu passado, tornam-se  estranhos ao que veem em volta de sí. São como os romanos perambulando entre ruínas de templos de Júpiter ou de Apolo, embasbacados sem saber o que eram, o que representavam. E por que não ?  Triturando uma bela estátua de mármore porque era de um deus pagão ou de uma mulher nua para fazer a argamassa da sua casa.

Vamos - sociedade civil e associações culturais - nos mobilizar para impedir que , mutatis mutandi, isso ocorra conosco, neste tempo onde se somam aos efeitos de desastres naturais às devastadoras consequências dos desastres evitáveis, como os incêndios citados,para o que concorrem as ações de governantes e ministros incultos.

 



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