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  Colunistas
Reinaldo Paes Barreto
COLUNISTA

 

 

Significado e Significante

 

Valho-me desse ping-pong de palavras, extraído de uma leitura algo simplista da teoria psicanalítica do Lacan, segundo a qual “significado” é o conceito, o sentido que a palavra expressa e “significante” é a sonoridade que a palavra produz, a sua interpretação cognitiva pelo “outro”, ou seja, como ela repercute, para ir ao meu ponto: certas matrizes da expressão linguística são claras, “por si se explicam”, outras não. No “vocabulário dos sentimentos”, por exemplo, as palavras em geral já trazem em si a sua “tradução”. “Raiva, tá na cara que é forte, explode; paixão, idem:, é um temporal do coração. Já amorzinho é uma palavra tão doce que engorda...

 

Outra área de enigmas “indecifráveis” para os não-médicos é a medicina diagnóstica, sobretudo o capítulo sangue. Hematócrito, além de parecer palavra grega, “antecipa” a sua compreensão? não. E basófilos, que parece uma doença do hálito! E protombina? (Parece o pai metido a besta da colombina!).

Mas as castas de vinho, não ficam atrás dessa hermetismo,, com honrosas exceções, como “Sauvignon” vir de selvagem é só questão de saber um pouquinho de francês, assim como “Tempranillo” vir de “temprano” (cedo, em espanhol) já que esta casta amadurece bem antes das demais é só conhecer um mínimo de línguas neolatinas...

Mas e...  Almafra, Almenhaca,  Arns Burguer, Azal, Bastardo (sem saber se os pais eram, ou não, casados no cartório!), Boal, Budelho, Caínho, Carão de Moça, Diagalves, Donzelinho, Esgana Cão, Folgazão, Granho, Jampal, Larião , Pé Comprido, Ratinho,  Samarrinho,  Trajadura , Alvarelhão (epa!) Arjunção, Borraçal, Carrega Burros, Coração de Galo, Negra Mole, Patorra, Pical, Preto Cardana,  Rabo e Anha, Ricoca, Sagrantino, Servilhão, sugere o que???

Já as marcas costumam ter procedência linguística ou com a IG (indicação geográfica), como Dão Meia Encosta, Duas Beiras, etc, ou com um fato histórico, como é o caso da Porca de Murça, o bom tinto do Douro, muito popular no Brasil. Ele deve o seu nome a uma lenda: no século VII, esse povoado, Murça, foi assolado por javalis, ursos e uma porca gigante, que a todos assustavam. Até que um cavaleiro de grande força e coragem conseguiu matar a fera. Mas em vez de erguerem uma estátua em homenagem ao herói, construíram esse monumento à Porca de Murça, para lembrar à população o mal que ela causou.

 
 

E o fecho vai por conta de uma experiência pessoal inesquecível: meu pai era diplomata e, quando estava no Rio, trabalhava no Palácio Itamaraty (Rua Marechal Floriano) e era colega do grande Guimarães Rosa, que também era nosso vizinho no Posto 2, em Copacabana. O “velho” detestava dirigir e o Rosa nem sabia. Moral: eu ia pegá-los no fim da tarde no vistoso Impala-60 que papai tinha trazido da República Dominicana, e vinha o nosso genial filólogo de Codisburgo na frente, comigo, conversando. Um dia perguntei-lhe: “mestre Rosa, qual foi o livro que mais lhe marcou na adolescência?” E ele: ”um dicionário. Porque descobri que há palavras que nasceram para sofrer, como: latrocínio, estupro, braguilha, curra ... E, outos, para serem felizes: beijo, brisa, saudade, meu bem...”

Tenho dito.

 

 



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