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Transporte público, tecnologia e modicidade da tarifa

Gilmar de Oliveira*

Em um cenário de perda crescente de demanda devido à crise econômica, aumento de custos e falta de investimentos na infraestrutura e na prioridade para o ônibus nas vias públicas, o setor de transporte urbano de passageiros enfrenta a maior crise da sua história. Em Petrópolis, nos últimos 10 anos, o serviço passou a transportar 30% menos passageiros pagantes sem alterar a quantidade de veículos em operação. Somente no acumulado dos últimos dois anos a queda foi de 11%.  Com o trânsito urbano a cada dia mais congestionado crescem os gastos e o resultado dessa perversa equação se reflete diretamente no custo da tarifa.

No Brasil, o incentivo ao transporte individual nas últimas décadas e o surgimento de meios alternativos de transporte contribuíram para reforçar esse cenário de crise. E chama atenção que a pauta das discussões sobre mobilidade urbana e futuro das cidades permaneça centrada em soluções voltadas para o transporte individual, tais como o compartilhamento de veículos e o uso de serviços por aplicativo.

O preço da passagem não cobre os custos de operação do transporte público e está incompatível com a capacidade de pagamento do cliente. Os últimos dois reajustes de tarifa da tarifa em Petrópolis acumularam o impacto de R$ 0,70 sobre a tarifa modal, mas não foram suficientes para manter o equilíbrio do setor.

O foco precisa ser no barateamento do custo da tarifa e um desses caminhos passa pela tecnologia. Apesar de parecer incoerente tratar de investimentos em momento de crise é fundamental agregar valor ao serviço através de novos meios de pagamento como medida para atrair parte dos usuários perdidos nos últimos anos. A tecnologia permite ao usuário ter acesso a informações básicas para o planejamento da sua viagem e monitorar as condições do trânsito, mapeamento de rotas e previsão de partidas e chegadas das linhas, por exemplo. É uma maneira de qualificar o transporte público, que por natureza é compartilhado, mais eficiente, barato, rápido e solidário.

A bilhetagem eletrônica em Petrópolis completa 12 anos em 2018 com a edição da Lei 6387/06. Desde então a forma tradicional de pagamento evoluiu gradualmente para o uso de cartões smartcards. O controle e a integridade dos bilhetes (integral, com desconto ou gratuidades previstas em Lei) foram aprimorados e a integração tarifária tornou-se uma realidade, favorecendo milhares de passageiros todos os dias. Hoje 70% das viagens realizadas por todos os passageiros do sistema são validadas com o uso de bilhetes eletrônicos. E, apesar de representar apenas 30% do total de registros de passagens, o custo operacional do recebimento em dinheiro é extremamente oneroso, superando os gastos com investimento e manutenção da bilhetagem eletrônica.

O transporte público precisa se reinventar e acompanhar a evolução tecnológica para atender às necessidades e expectativas dos clientes. E isso passa pela oferta de mais alternativas de pagamento da passagem. É necessário oferecer mais comodidade, segurança e novas opções de pagamento, medidas que podem contribuir para recuperar parte da demanda perdida nos últimos anos. Sobretudo no momento em que o setor está competindo com outros modais, a tecnologia pode fortalecer essa competitividade.

São muitas as alternativas de pagamento de tarifa no transporte público e essa diversidade atende às necessidades de um cliente cada vez mais exigente e conectado. Aceitar pagamento com cartões bancários comuns, de crédito e de débito, em breve será uma realidade no Brasil a exemplo do que já ocorre em muitas cidades do mundo.

Cidades como Brasília (DF), Jundiaí (SP), Curitiba (PR) e São Paulo (SP) estão gradualmente passando a aceitar cartões multiuso e instalando validadores com tecnologia por aproximação (contactless). Mastercar e Visa são as administradoras de cartões de crédito que estão liderando esta mudança.

A tendência é mundial. As cidades que aceitam cartões bancários no transporte público incluem Nova Iorque, Madrid, Boston, Las Vegas, Atenas, Cingapura, Londres e outras 80 cidades espalhadas pelo mundo. Utilizar o celular para fazer o pagamento da tarifa através de aplicativos e tíquetes de QR-Code são outras alternativas que também poderão estar disponíveis em um futuro próximo.

Tirar o dinheiro de circulação no transporte significa menos riscos de assaltos, mais segurança para a população e até menos tempo gasto no embarque, dispensando o recebimento de valores e o cálculo de trocos. Além disso, tecnologias de pagamento contribuem para reduzir custos operacionais e podem ter benefícios extras impactando de forma positiva na modicidade das tarifas.

Mais importante é a comodidade para o usuário, que não precisará comprar bilhetes ou fazer recargas como funciona hoje nas cidades brasileiras que possuem os sistemas tradicionais de bilhetagem eletrônica. O número insuficiente de pontos de recarga é um gargalo logístico que afugenta o usuário interessado em utilizar o pagamento eletrônico.

Substituir a cobrança manual da tarifa por meios eletrônicos também contribui para dar mais transparência na gestão financeira do serviço e justiça fiscal na arrecadação de tributos. Favorece o processo de planejamento do serviço possibilitando mapeamento completo das origens e destino das viagens e o aperfeiçoamento contínuo da programação de horários para atendimento às necessidades da demanda de passageiros.

*Gilmar de Oliveira é doutor em engenharia de transportes pela COPPE-UFRJ e consultor de transporte público.



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