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  VIOLÊNCIA

Relacionamento abusivo não é apenas entre casais

Caso de filha que planejou morte da mãe chamou atenção para o assunto

João Vítor Brum, especial para o Diário

A primeira audiência do julgamento de Paloma Vasconcelos e Gabriel Molter, realizada nesta semana, reacendeu uma importante questão ainda pouco discutida na sociedade: relacionamentos abusivos, um dos pivôs do frio e calculado assassinato de Dirce Botelho, mãe de Paloma, em outubro de 2018. Nos depoimentos, familiares e amigos dos acusados e da vítima contaram sobre o conturbado namoro do casal e da relação entre mãe e filha, que foi repleta de altos e baixos até o dia da morte de Dirce, quando houve uma discussão entre as duas.

A relação de Paloma com sua mãe foi discutida ao longo de toda a audiência, que durou mais de 12 horas e terminou no início da madrugada de quinta-feira (11). No primeiro depoimento, do viúvo de Dirce, o relacionamento foi abordado e, de acordo com o padrasto da acusada, Manoel da Silva, foi turbulento desde quando a jovem era criança.

Um exemplo é o fato de que Paloma não terminou o ensino médio, sendo presa apenas com o primeiro ano do ensino médio completo. Na audiência, ela contou que está finalizando o segundo ano dentro da prisão.

Quando era menor de idade, a jovem foi apreendida com um soco inglês em uma ocasião e, em outra, foi levada à Delegacia por iniciar uma briga. Já maior de idade, ela foi autuada por ter sido pega com produtos falsificados, que a mesma vendia com o namorado.

Familiares, amigos e pessoas que trabalhavam com Dirce na Feira de Itaipava comentaram que as brigas entre as duas eram constantes e que, muitas vezes, chegavam a agressão física, com tapas e puxões de cabelo. A irmã de Gabriel e seu marido, que também testemunharam, contaram que a menina falou algumas vezes sobre matar a mãe.

Paloma relatou que a mãe a diminuiu ao longo de toda a vida, chamando-a de gorda, entre outras ofensas. Ela contou, também, que a mãe escondia comida dela desde pequena, e que, uma vez, levou biscoitos de cachorro para a escola pois queria ter algo diferente para comer, e que uma amiga encontrou os biscoitos, fazendo com que Paloma fosse vítima de bullying.

- Existem relatos frequentes de famílias desestruturadas e pessoas reclamando de mães que são abusivas, ou vice-versa. Mas o conceito de abuso tido, muitas das vezes, é um tanto quanto deturpado. Muito se confunde o ser abusivo com o fato do outro não realizar o desejo imediato como é exigido, e não necessário - disse a psicóloga Gabriela Bello, que destacou algumas características típicas de relacionamentos abusivos, lembrando que há muitas outras formas.

- Algumas características notadas e muito presentes neste tipo de relação são: o abuso psicológico, a depreciação do outro, a provocação de sofrimento mental, tais como: ameaças de abandono ou uso do medo para coação, o abuso físico, a violência física a violência sexual, entre outros - completou a profissional.

Enquanto a filha se defende e assume o papel de vítima, algo que a mãe não é mais capaz de fazer, há também relatos de que Paloma não trabalhava, não ajudava na casa e, de acordo com a própria, já havia furtado R$700 da mãe, que dividiu com o namorado (R$400 para Gabriel consertar seu carro e o restante para ela, que gastou os R$ 300 em comida, de acordo com Paloma).

O sumiço do dinheiro, inclusive, foi o motivo pelo qual uma câmera escondida foi instalada no quarto de Manoel e Dirce, menos de duas semanas antes do crime. Sem as imagens, o assassinato nunca seria descoberto.

Paloma, em depoimento, disse que planejava se matar após o assassinato, e também alegou que Gabriel sabia, um plano diferente do narrado pelas testemunhas, que diziam que a jovem alegava “só poder ser feliz após a morte da mãe”.

Em seu depoimento, o padrasto contou que, quando precisa, Paloma sabe ser muito convincente em demonstrar emoção. Quando questionado sobre o sentimento que tem pela jovem, ele mencionou apenas indiferença.

 Já Paloma, em seu depoimento, disse que a pior coisa de sua vida foi fazer Manoel sofrer, pois, segundo ela, ele seria a única pessoa que a apoiava e a defendia da mãe. A jovem chegou a chorar quando falou do padrasto, demonstrando mais emoção do que quando falava sobre o assassinato da mãe.

Mesmo com a relação difícil, a filha não tentava deixar a casa da família. Ela chegou a morar por um tempo com o pai, em outra cidade, mas teria sido mandada de volta pelo mesmo. No dia da morte de Dirce, as duas discutiram porque Paloma não queria ajudar a mãe a limpar a casa e se trancou no quarto.

Meses antes da morte, a filha pagou R$ 4 mil em um ritual de magia negra para a mãe morrer e colocou inseticida em um vinho que só Dirce tomava, mas os planos não funcionaram. No dia, a jovem inventou que ia espremer um cravo nas costas da mãe, subiu em cima dela e começou a sufocá-la, momento em que a vítima a jogou no chão e Gabriel a segurou.

Toda a ação do casal durou 40 minutos, até Dirce morrer. Gabriel e Paloma deram banho na vítima, a vestiram e maquiaram, colocando-a de volta na cama. Quando chegou em casa, o marido encontrou a porta do quarto do casal trancada, e pediu ajuda de Paloma para entrar no cômodo pela janela do banheiro. Entrando, encontrou a mulher deitada, com o corpo "perfeito" e não respirando.

Os paramédicos disseram que ela tinha morrido por volta de 15 minutos antes de Manoel chegar, e Paloma teria dito "se você tivesse vindo antes, minha mãe estaria viva". Dirce foi sepultada no dia seguinte (3/10/2018), sem nenhuma suspeita de assassinato envolvendo a morte, e apenas no dia 5, Manoel teve acesso às imagens que mostrava a ação do casal.

Na época, Paloma e Gabriel não podiam ser presos devido à Lei Eleitoral, mas se entregaram e confessaram o crime na semana seguinte e estão presos desde então.



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