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Ronaldo Fiani
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O Que há de Errado com as Previsões dos Economistas?

 

Ronaldo Fiani

As festas de final de ano trazem muitos clichês, vários deles muito questionáveis, ainda que bastante populares. Por exemplo, a consulta a videntes pela imprensa, para saber como será o novo ano. Outro, bem menos popular, mas que usualmente faz parte da pauta da imprensa de final de ano, é a consulta às previsões dos economistas. Estas previsões frequentemente se mostram (muito) equivocadas quando o ano termina.

Um exemplo constrangedor é o Boletim Focus. Trata-se de um relatório publicado semanalmente pelo Banco Central, trazendo as expectativas do mercado financeiro para uma série de variáveis econômicas importantes, como a taxa de inflação medida pelo IPCA, a taxa Selic etc. Para se ter uma ideia da magnitude do erro, eis alguns dados: o Boletim Focus previu o IPCA em torno de 3,32% para o final 2021. O valor apurado foi muito superior, de 10,42%. Também previu taxa Selic de 3%, mas ela terminou o ano em 9,25%. O crescimento do PIB previsto pelo Boletim Focus de 3,40% foi, na verdade, de 4,51%.

Já se disse sarcasticamente que astrólogos acertam mais do que economistas. Então, por que as previsões econômicas continuam sendo apresentadas (e desmentidas) a cada ano? É difícil responder a esta pergunta. Em primeiro lugar, é importante entender como funciona uma economia moderna. Assim, entenderemos por que não faz sentido falar em “previsões econômicas” para um período distante à frente, como todo um ano.

O nível da atividade econômica depende dos gastos: são os gastos que movimentam a economia. Se as famílias não gastam em consumo, se os empresários não gastam investindo na expansão de suas fábricas e de suas lojas, se os importadores estrangeiros não gastam importando mercadorias brasileiras e se o governo não gasta, por exemplo construindo escolas e estradas, a economia para.

O problema é que alguns destes gastos estão interligados. Por exemplo, as famílias só vão gastar em consumo se os trabalhadores estiverem empregados recebendo seus salários. O emprego destes trabalhadores, por sua vez, depende da decisão dos empresários de contratar trabalhadores, especialmente de contratar mais trabalhadores, pois a economia precisa crescer. Mas os empresários somente vão contratar mais trabalhadores se eles investirem, e eles só vão investir se eles tiverem a expectativa de que a demanda pelos seus produtos vai aumentar.

Desta forma, o investimento (e indiretamente também o consumo) depende das expectativas dos empresários de que a economia vai crescer. Se algo acontecer e as expectativas dos empresários forem desfavoráveis, o investimento não vai acontecer na medida necessária e a economia não vai crescer. Se as expectativas se mostrarem mais favoráveis, o investimento vai crescer além do esperado e a economia vai crescer fortemente. Como prever o crescimento?

Vejamos agora a taxa de inflação. Imaginemos que haja notícias de instabilidade política no Brasil. Os investidores internacionais têm horror à instabilidade e, portanto, este tipo de declaração provoca fuga de dólares aplicados no país. Em consequência, o real se desvaloriza (o dólar fica mais caro), e isso eleva o preço dos combustíveis: conforme já expliquei em outros artigos, a Petrobras é hoje uma empresa internacional e, assim, para não perder dinheiro em relação aos preços internacionais dos combustíveis, converte o preço dos combustíveis aqui no Brasil em dólares. Resultado: subiu o dólar, aumenta a gasolina, o diesel, o GLP etc. O aumento nos combustíveis encarece os fretes dos bens e gera inflação. Como prever a inflação?

Por último, vamos supor que o governo se assuste com a inflação. Assim, decide elevar a taxa de juros para desestimular os gastos de investimentos das empresas e de consumo (como imóveis e bens comprados a crédito) das famílias, na expectativa de que a redução na demanda provocada pelo aumento da taxa de juros gere um excesso de oferta de bens, que force os preços para baixo e reduza a inflação. O governo também torce que com a maior taxa de juros, os dólares que fugiram das notícias de instabilidade voltem, o dólar fique mais barato e o preço dos combustíveis baixe. Como prever a taxa de juros?

Deste modo, a economia depende de várias decisões e expectativas que serão tomadas ao longo do ano. Não há como prever. Por que então alguns economistas insistem em fazer previsões? Difícil responder. A verdade é que a economia deve tratar de tendências, e nunca fazer “previsões”. Vamos deixar isto para os videntes.

 



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