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 Ataualpa A.P. Filho

 

Para Mafalda

          Temos que admitir que uma personagem criada com perfeição salta da ficção para a realidade e passa a viver conosco descontraidamente. Não me preocupo com a mediocridade, porque sei que o tempo apaga os sucessos efêmeros. O conceito de imortalidade é construído na tradução do viver. A Arte que questiona, que não se restringe à contemplação, cria, com seus próprios pés, o caminho para a eternidade, porque encontra espaço na memória do povo que a imortaliza.

           Na Arte, há criatura que vai além do criador. Às vezes, encontramos casos em que é quase impossível dissociar um do outro. Quem olha para Carlitos e não vê Charles Chaplin? Como separar Ziraldo do Menino Maluquinho?  E, nessa brincadeira, já estão juntos há quarenta anos. O Maurício de Sousa já faz parte da turma da Mônica. O quanto existe de José Mojica em Zé do Caixão? E neste, o quanto há daquele? Quantas pessoas em um só Pessoa? Quem é gauche, José ou Carlos? Quem viu a pedra no meu do caminho? O “ser ou não ser” é de Hamlet ou de Shakespeare? Que pacto existe entre Fausto e Goethe? Quem fala de Saint-Exupéry sem lembrar do “Pequeno Príncipe”?  Como imaginar Edgar Allan Poe sem “O Corvo” e Luiz Gonzaga sem “Asa Branca”? Como querer entender o enigma de Capitu sem passar pela pena de Machado? Já vi cópias da “Última Ceia” penduradas em paredes residenciais cujos donos não tinham o menor conhecimento do trabalho de Leonardo da Vinci.

          Sherlock Holmes é mais conhecido do que Conan Doyle, o seu criador. Por questão elementar, “meu caro Watson”, tenho mais simpatia por Holmes do que por Bond, o James Bond, o 007. A corrida armamentista da Guerra Fria não fez bem à humanidade.

         

 

O falecimento de Joaquín Salvador Lavado Tejón, o Quino, em 30/09/2020, entristeceu os que gostam do humor nas reflexões sobre as ações humanas. A sutileza da ternura não é incompatível com o pensamento crítico. É possível questionar sem agredir, é possível estabelecer uma discussão sem ofensas. A defesa do bem comum perpassa pelo equilíbrio, pelo discernimento. Pela sensatez, Mafalda tornou-se cosmopolita. A menina de seis anos tem uma lucidez capaz de conduzir um raciocínio lógico pela ótica que prioriza a harmonia do homem no meio em que vive.

          Na Argentina de Evita, de Atahaulpa Yupanqui, de Jorge Luis Borges, nasceram Quino e Mafalda. E aqui é possível parafrasear Camões: transforma-se o criador na cousa criada por virtude do muito se dedicar. Não tem mais a que desejar, pois na obra criada se sente realizado.

           Quino publicou a primeira tirinha de Mafalda em 29/09/1964. Em 1973, decidiu que não mais a desenharia. Mas, nesse período que trabalhou com a sua personagem, produziu quase 2 mil tirinhas, que estão traduzidas para mais de 30 idiomas. A menina fã de Os Beatles e que detesta sopa não está sozinha, tem também a sua turma: Manolito, Miguelito, Susanita, Guille, Felipe, Libertad...

            Pensar o mundo pela visão de uma criança requer percepção e sensibilidade para destilar, pela ingenuidade, as indagações que despertam a consciência da responsabilidade social. Não é tão simples optar pela liberdade diante das adversidades impostas pelas intransigências que emanam do radicalismo inerente ao despotismo.

            Quino encontrou a dose certa para atingir todas as faixas etárias em todas as línguas, em todos os povos. A Mafalda universalizou-se, porque o homem é o mesmo nos quatro cantos do mundo. Raros são os educadores que ainda não viram uma tirinha da Mafalda em um livro didático, em uma prova, em um exercício...

            A Arte tem o poder da transcendência. Quino viverá em Mafalda eternamente.  Concordo com ela quando afirmara que “algumas pessoas não entendem que a Terra gira ao redor do Sol e não em torno delas.”  Quem pensa que a arte deve seguir sob rédeas jamais entenderá o conceito de independência. E aqui vale lembrar os versos da canção “Los Hermanos” de Atahaualpa Yupanqui:

            “Yo tengo tantos hermanos/ que no los puedo contar./ En el valle, la montaña,/
en la pampa y en el mar./ Cada cual con sus trabajos,/ con sus sueños, cada cual.
Con la esperanza adelante,/ con los recuerdos detrás.”

                  



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