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  VACINA

 

 

Brasil desenvolve vacina contra a covid-19

Fiocruz deve iniciar testes em duas semanas

Jaqueline Gomes

A notícia mais aguardada pela população mundial é a da produção de uma vacina contra a covid-19, responsável por uma pandemia como há muitos anos não se via. China, Reino Unido e Estados Unidos já estão em etapas avançadas, mas, o Brasil também trabalha para produzir o medicamento. A expectativa do pesquisador da Fiocruz Minas, doutor Alexandre Machado, é de que testes em camundongos sejam iniciados em duas semanas.

- Nós já construímos o vírus para a vacina, que é composto pelo influenza modificado dentro do laboratório para que ele possa transportar parte da proteína do novo coronavírus, que lhe dará capacidade de oferecer proteção contra a covid-19. Estamos no final da caracterização e preparação de estoque. A nossa hipótese é de que os pacientes vacinados com esse vírus induzirão resposta imunológica contra a covid-19 e também contra a gripe influenza. O que é mais interessante nisso, é que poderemos atingir dois alvos com um só disparo. É óbvio que o nosso objetivo principal é a covid-19, porque a influenza já tem vacina. Mas, a ideia é de que possa ser melhor tanto do ponto de vista de logística quanto do econômico, pois a pessoa vai ao posto de saúde e toma uma única vacina para as duas doenças – explica o pesquisador.

Ainda de acordo com Machado, os primeiros resultados dos testes em animais devem sair em dois meses. Após isso, devem ser feitos estudos por pelo menos mais 12 meses para que seja iniciada a segunda etapa, que seriam os testes pré-clínicos para laboratórios, controle de lotes de reagentes, licenciamentos, entre outros procedimentos, para aí então ser testada em humanos.

- O processo de desenvolvimento de vacinas é demorado. Acreditamos que se tudo der certo estaremos com a vacina no fim de 2021. A rapidez com que as vacinas da China e de Oxford, que já estão na fase três, estão avançando é em função de calamidade pública mundial. A vacina mais rápida já produzida em situação comum, se não me falha a memória, foi feita em cinco anos. O processo, normalmente, leva em média de oito a dez anos. No Brasil nós não temos os recursos que essas empresas têm, hoje, nós temos recursos para a pesquisa básica, mas precisamos de investimento pesado para que esse produto chegue dentro de uma ampola no SUS, que é o nosso objetivo. Testes clínicos requerem investimentos de bilhões de dólares. Então, você tendo investimentos de governos, parcerias de empresas privadas, enfim, tendo dinheiro, as coisas andam muito mais rápido – revela Alexandre.

O estudo brasileiro está sendo feito pelo CT- Vacinas, que é uma parceria entre a Fiocruz Minas e a Universidade Federal de Medicina de Minas Gerais, que tem parceria também com a USP, Incor,Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e Instituto Butantan. O doutor Ricardo Gazzinelli é o coordenador macro do grupo, que envolve dezenas de pessoas. 

Transmissibilidade

De acordo com o cientista, o maior problema do novo coronavírus é a sua grande capacidade de transmissibilidade por via respiratória e também o pouco conhecimento que se tem a respeito dele.

- O covid-19 é pouco conhecido ainda. O que sabemos é que é uma doença sistêmica de foco respiratório. Então, todos os protocolos de terapia estão sendo estudados em meio à pandemia, é como se você tivesse que trocar um pneu de um carro em movimento ladeira abaixo. Outras doenças têm alta letalidade como o ebola, a gripe aviária, a raiva e a febre amarela, mas, para algumas já há vacinas. Do novo coronavírus nós não temos um histórico para saber sua real letalidade, não temos uma imunidade prévia contra ele, estamos tateando no escuro, por isso, a importância da ciência.

Alexandre Machado alerta para a relevância do monitoramento de vírus em animais silvestres, pois a principal versão de que se tem conhecimento é de que o covid-19 teria como hospedeiro o pangolim, um pequeno mamífero asiático, e teria sido propagado pelo morcego. Para ressaltar o perigo de se consumir, ou ter contato com animais silvestres, o pesquisador citou um caso que ocorreu com ele.

- No dia 23 de dezembro estava seguindo para o trabalho e avistei um filhote de mico-estrela caído na beira da estrada. Tentei resgatá-lo, e ele, assustado, me mordeu. Não chegou a ser uma mordida forte, apenas raspou o dente na minha pele. Pois foi o suficiente para eu baixar em uma unidade médica e tive que tomar diversas vacinas e soro durante dois meses contra o vírus da raiva – relatou. 

Valorização dos cientistas

Para o pesquisador é preciso que os cientistas sejam mais valorizados, não só com insumos para pesquisas, mas também na formação dos profissionais. Segundo ele, muitos talentos abandonam a formação e outros que se formam deixam o país por falta de condições de viver da ciência no Brasil.

- A ciência está sendo redescoberta neste momento de pandemia, mas, é preciso que esta valorização não seja transitória. Um dia essa pandemia vai acabar, mas vivemos em um mundo pandêmico, temos histórico de várias epidemias, e outras vão surgir. A humanidade convive e vai conviver com epidemias. Muitas pesquisas com a sars covi1 foram feitas entre 2002 e 2004, mas foram abortadas quando o vírus sumiu. Será que se tivéssemos dado continuidade não teríamos hoje uma vacina eficaz contra o covid? A ciência é contínua, não podemos continuar “apagando incêndios” – constatou Machado.

 

 



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