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  Geral

Em isolamento, devotos do Candomblé pedem saúde ao orixá da cura para o mundo enfrentar a pandemia da covid-19

Wesley Fernandes – especial para o Diário

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Arlindo-Silva-e-o-fotógrafo-José-Medeiros

Há quase um ano, a pandemia da covid-19 transformou o mundo e o dia a dia das pessoas. Em meio a tanta dor, além da medicina e da ciência, há quem recorra à fé para pedir saúde e proteção. Para os devotos do Candomblé, esses pedidos são levados ao herói que veste palha-da-costa da cabeça aos pés, carrega um xaxará (apetrecho) feito com fibras de dendezeiro, tem o poder de levar para longe do planeta qualquer enfermidade e atende pelo nome de Omolu ou Obaluaê, o Orixá da cura.

Entre os seguidores das religiões de matriz africana, a divindade tem sido a mais evocada desde que a pandemia do novo coronavírus começou, no primeiro trimestre de 2020. Mas há quem esteja fazendo muito mais, mesmo com as atividades dos terreiros reduzidas pelos decretos que coíbem aglomerações de pessoas.

Em Petrópolis, por exemplo, todas as segundas-feiras é dia de rogar ao Orixá da cura em uma casa de santo, localizada no Caxambu. A rogação, que geralmente é aberta ao público, tem sido realizada somente pelos filhos do Ilê Asé Afefe Oyá Topé, que significa Casa da Força dos Ventos de Oyá Topé.

A Yalorisá Adriana de Oyá conta que a rogação tem o intuito de pedir saúde para o mundo inteiro. Essa celebração sempre foi feita uma vez por mês, mas ficou ainda mais necessária em período pandêmico, passando a ser realizada semanalmente. "Nessa pandemia, onde ficamos limitados a realizar nossas atividades, nos reunimos toda a semana com o intuito de salvar o mundo. Pedimos a Obaluaê que nos traga a bênção da saúde e que leve as pragas do mundo para longe”, disse.

Ainda de acordo com a líder religiosa, na rogação os participantes oferecem o prato preferido de Omolu, neste caso o doburu (pipoca). "Ele adora pipoca e feijão preto. Essa celebração não ocorre somente na pandemia, mas neste ano tornou-se ainda mais importante”, contou.

Além das rogações semanais, o Candomblé promove também o Festejo de Olubajé - o banquete do rei - realizado tradicionalmente no mês de agosto, em todo o país. Entretanto, por conta da pandemia, a festa foi cancelada em 2020 e a expectativa é que ela possa ser realizada esse ano. “Omolu já designou para nós que esse período está passando e que, em breve, todo sofrimento vai diminuir. Por isso, temos fé que em agosto poderemos agradecê-lo com uma festa bem bonita”, finalizou a Yalorisá.

Atualmente, o Ilê Asé Afefe Oyá Topé possui três filhos de Obaluaê: um Ogã (servo do sagrado), uma Egbomi (adepto do candomblé que já cumpriu o período de iniciação e ajuda a zelar pela casa) e um Abiã (termo dado aos iniciantes do Candomblé). Todos os três, além de filhos do Orixá da cura, têm suas histórias e particularidades ligadas ao santo.

 Yalorisá-Adriana-de-Oyá

Histórias de cura

A história de vida do Ogã Jorge Reinaldo, segundo ele, é a verdadeira prova do poder e da existência do Orixá. Hoje com 46 anos de idade, ele conta que aos três meses de vida foi diagnosticado com um problema grave de saúde e os médicos comunicaram à sua família que ele não sobreviveria. “Diante da negativa dos profissionais de saúde, minha mãe, que já era seguidora do Candomblé, recorreu ao seu Pai de Santo, que me entregou aos braços de Omolu e eu fui salvo”, disse.

Atualmente, Reinaldo diz emocionado que ser filho de Omolu é uma dádiva. “O santo é tudo na minha vida, tudo o que tenho devo a Omolu. Ele me curou quando nasci, me dando saúde e, recentemente, me salvou novamente de um grande problema gástrico. Então, ter nascido filho desse Orixá é uma dádiva e a melhor coisa que já aconteceu na minha vida”, finalizou.

Já a história da Egbomi Monique Damião, de 41 anos, se confunde com a história Ilê Asé Afefe Oyá Topé. Ela, que foi uma das primeiras filhas da casa, juntamente com a Egbomi Kátia Espindola, conta que em meados de 2004 diversas feridas começaram a aparecer por todo o seu corpo e a medicina não foi capaz de curá-la. “Recorri a inúmeros médicos e frequentei diversas religiões, mas foi no Candomblé, com a força do meu pai Omolu, que eu fui curada”, pontuou.

A devota, que tem oito anos de iniciada na religião, fala da sua fé e amor ao santo. “Omolu é tudo em minha vida. Foi ele quem me curou e quem me deu forças para enfrentar as dificuldades da vida. Meu amor por ele é indescritível, só quem é do axé sabe como é”, concluiu.

Iniciante

O Abiã William Mantovani, de 27 anos, conta que sempre foi fascinado por Obaluaê, mesmo antes de descobrir que era filho do Orixá. "Não sabia ao certo quem era o meu Orixá, mas sempre tive esse fascínio por Omolu, desde o momento que conheci as religiões de matriz africana", contou o devoto, que começou na Umbanda e há dois anos está no Candomblé.

William diz ainda que descobriu que Omolu era seu pai através da iniciação em Ifá - segmento religioso tendo seu culto direcionado à Orunmilá, Orixá da sabedoria e direcionamento da Humanidade. "Quando descobri em minha iniciação de Ifá que Omolu era meu pai tudo fez sentido, desde meu nascimento. Ele escolheu meu Ori e disse 'Esse é meu filho' e eu o aceitei com todo o meu coração", frisou o jovem.

O rapaz conta também sua paixão pelo Orixá e pela religião. "Ele me deu a dádiva de ser do axé e apaixonado pelo axé. Nos meus momentos que o rogo, basta um paó ou uma reza e ele se faz presente. Omolu me mostrou que a vida nunca seria fácil e nunca me deixou desprotegido, sempre me envolveu com suas palhas. A frase que me conforta e sinto quando converso com ele, seja limpando o quarto de santo, fazendo doburu, sua comida favorita, ou simplesmente colocando as folhas de mamona em seu cesto é: não temas filhos, eu sou teu pai", finalizou emocionado.

 Egbomi Monique e o Abiã William Mantovani do Ilê Asé Afefe Oyá Topé

 

Candomblé

Quem gosta de cachaça é Exu. Quem veste branco é Oxalá. Quem recebe oferendas em alguidares (vasos de cerâmica) são orixás. E quem adora os orixás são milhões de brasileiros. O candomblé, com seus batuques e danças, é uma festa. Com suas divindades, é a religião afro-brasileira mais influente que chegou ao Brasil através dos negros escravizados, vindos da África. Nela, os orixás cultuados são normalmente reverenciados por meio de danças, cantos, rogações e oferendas.



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