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  ENTREVISTA

ENTREVISTA -  Professor de filosofia e autor Gilvan Fogel fala sobre a “Experiência da Linguagem”

 

O Diário de Petrópolis entrevista hoje o professor Catedrático de Filosofia da UFRJ e autor, Gilvan Fogel, que, para evidenciar sua importância para a filosofia, nos reportamos a uma citação de um livro: “O Presente do Filósofo", redigido e publicado em sua homenagem: “Gilvan Fogel não é só o nome de um professor de filosofia; a entonação diz mais que a muda leitura: evoca a incorporação da filosofia, ela mesma”.

Nascido em Petrópolis e residente na cidade (foi para Alemanha fazer seu doutorado), autor dos livros: “Conhecer é Criar”, “Sentir, Ver, Dizer", “Homem, Realidade, Interpretação”, “Que é Filosofia?”, “O Homem Doente do Homem, e a Transfiguração da Dor”, “Sobre Homem e História” (seu último livro) e, entre eles, “O Desaprendizado do Símbolo” livro tema desta entrevista, o Diário de Petrópolis, pergunta:

DP:- Vê-se uma relação próxima entre a poesia e a filosofia, em: “O Desaprendizado do Símbolo”. Como se dá essa relação?

GF:- A relação se faz a partir da compreensão de linguagem. Linguagem, realidade e pensamento. Linguagem não é convencionalismo linguístico, simbólico - significante, significado, referência, etc. Isso não é falso, mas é posterior, tardio. Linguagem, originariamente, é o acontecimento de irrupção de realidade como realidade, isto é, a realidade nela mesma e como ela mesma desde ou a partir de experiência (páthos). Seguir, poder seguir ou acompanhar este acontecimento é pensar. Portanto, pensar, imediatamente, não é entendido como uma operação mental, lógico-formal, de representação conceptual. Poesia, de poiesis, não é fazer versos, rimas, nada sentimental e meloso, como costuma ser (sub)entendido. Poético é entendido a partir de experiência de ou da linguagem, quer dizer, experiência (afeto, páthos) de gênese de realidade. Assim, poesia, poiesis, é sintonia e sincronia com a própria realização de realidade, sua gênese e, então, com o próprio pensamento. Assim, poesia, poiesis, é um dizer, que é mostrar, fazer, tornar visível (P. Klee) ou dar a ver (J. C. Melo Neto, P. Valéry). São graves e agudas questões, que reclamam uma lenta e cuidadosa elaboração, explicitação.

DP:- O senhor descreve no presente livro, que o homem é um “aberto para a vida”, “pura aptidão”. Podemos afirmar que só a “arte” traz a possibilidade para essa abertura?

GF:- Não. Não é só a arte. A arte é uma possibilidade desta abertura fazer-se, concretizar-se. Uma possibilidade radical ou exemplar - essencial. Mas fazer ciência, matemática, física, arquitetura, jogar futebol, escalar o Evereste, mesmo capinar a rua ou a horta são coisas humanas, demasiado humanas, que se dão, que só podem se dar desde ou a partir de tal abertura. Abertura está falando da constituição (da essência) fundamental do homem como poder ser, como possibilidade de e para possibilidade. Trata-se de entender o homem como o vivente que é na e como possibilidade, de e para possibilidade e não uma coisa, um algo. Este é um modo de ser ímpar. Modo de ser este que perfaz liberdade ? livre ou aberto para. Igualmente, um complexo tema a ser elaborado, discutido, explicitado, enfim, esclarecido.

DP:- Nas palavras de Martin Heidegger (1889-1976), importante filósofo do século XX, as palavras cotidianas são um “poema esquecido, e desgastado". Como entendermos o tamanho dessa importância, para o homem, no que concerne “a linguagem da poesia”?  

GF:- O cotidiano é a vigência do hábito  ?  do mecânico e automático. Nele a linguagem esta cristalizada em sinais, que são usados na comunicação. São tópicos, não palavras, nomes. Todos falam igual ou igualmente. Por outro lado, trata-se, sempre, de restaurar, isto é, de retomar ou revigorar a linguagem nela mesma (limpando-a do hábito, do mecânico), na sua “originariedade", que é experiência e, assim, tornar ou fazer visível  ?  mostrar. Num poema, sempre que grande, essencial, uma palavra, um nome, é usado(a), “re-usado(a)” como que no instante de seu nascimento ? ele (ou ela, a palavra) “re-nasce”. E assim renasce real, realidade. No cotidiano, no habitual, como dito, a linguagem está cristalizada no sinal, sedimentada no símbolo e isso é bom e necessário para a informação e a comunicação. Mas nisso e com isso a linguagem originária, a poiesis, enquanto e como dizer (mostrar, tornar visível), que é a própria criação, está morta. Informação, comunicação não é pensamento, não é linguagem originária, nascente, fundadora.

DP:- Por que a poesia de Fernando Pessoa (1888-1935), na voz de Alberto Caeiro, é o exemplar perfeito para a “palavra poética”, “a palavra que realmente diz"? E como surgiu a ideia de Fernando Pessoa?

GF:- Porque Fernando Pessoa, sobretudo na voz de Alberto Caeiro, mostra como linguagem, poética, não é informação e comunicação simbólicas (isso é uso cotidiano da linguagem), mas experiência da linguagem. É como repetir o gesto, o ato criador descrito no Gênesis, onde, quando as coisas (a realidade) são, irrompem ou aparecem, se dão ou acontecem ao ganhar um nome. O nome funda, inaugura, instaura. O nascer, o eclodir de real enquanto e como nomear, dizer (mostrar). Trata-se de expor, explicitar e esclarecer este verso extraordinário de Pessoa/Caeiro: “As cousas não têm significação: têm existência”. O que é e como é presença/existência enquanto e como dizer/mostrar. Entender isso é desaprender a linguagem como símbolo, como sinal, como mero índice de/para comunicação/informação. É transpor-se para a gênese da linguagem e, respectivamente, para a gênese do real. Por isso, o referido livro leva o título “O Desaprendizado do Símbolo” ou “Da experiência da linguagem”.

DP:- Vemos no seu livro a definição do termo “originalidade” a partir de Friederich Nietzsche (1844-1900), importante filósofo do século XlX, a saber: "ver algo que ainda não tem nome, que não pode ser nomeado, ainda que esteja diante de todos os olhos...", para o senhor, professor Gilvan, o que é o “original”?

GF:- Originalidade, ser original, que coincide com criação, não é intimismo, não é exacerbação de subjetividade e de subjetivismo. Não é busca do novo pelo novo, a sanha pelo novismo, pelo novidadeiro. Isso é pura afetação. Afetação é sempre mentira. Não. Originalidade, criação, é, precisa ser ou tornar-se sintonia e sincronia com gênese, com a própria geração de realidade. É participação vital. Experiência, páthos, só experiência (páthos) funda e possibilita tal acontecimento. O original, o criador, repete, isto é, “re-toma” (nada de papagueação ou macaqueação) o originário, a própria origem ou gênese, que se repete ou se “re-toma” à medida que se altera (= vir a ser outro), se diferencia  ?  se transforma. Esta é uma experiência extraordinária.

DP:- Diante de uma intimidade tão peculiar como esta, que é a da afinidade de pensamento, ainda mais de filósofos da importância de Nietzsche e Heidegger, como é que se manifesta sua linha de pensamento?

GF:- Eu procuro fazer o que disse, o que estou dizendo. Jamais procuro ser original, no sentido do novismo, do novidadeiro. Na verdade, busco o velho, o antigo. Filosofia é uma vontade, até obsessiva, de compreender realidade  ?  o real enquanto real. O caminho está apontado, insinuado, nas minhas respostas anteriores. É preciso buscar repetir, “re-tomar” origem, fundamento, a partir dos grandes (essenciais, radicais) pensadores. Com eles realmente se aprende. Cabe lê-los cuidadosamente, lentamente. Não há, não pode haver pressa.

DP:- Professor Gilvan, qual a diferença entre o ensino da filosofia, e doutrina filosófica, visto que doutrina fecha, e filosofia abre?

GF:- Filosofia não é doutrina. Pensamento não é doutrina. Doutrina, que, no fundo, costuma ser entendida como um ementário de bolso para uso e abuso, estilo vade-mécum, é coisa dos manuais e das histórias da filosofia, que costumam ser uma cronologia das doutrinas, uma arrumação, enfileiramento, segundo e seguindo o calendário, a folhinha, das supostas doutrinas, respostas, dos filósofos. Hegel disse que, diante de tais histórias, temos aquela insólita sensação, expressa num provérbio alemão, que diz: “São tantas as árvores que não se vê, que não se pode ver a floresta”. As árvores esconderiam a floresta. Sim, as filosofias, as doutrinas, escondem a filosofia. Filosofia é exercício de perguntar e ver - mesmo ver o ver.

DP:- Sabemos que o senhor foi aluno de Hans-Georg Gadamer (1900-2002), que foi assistente de Heidegger, cuja obra mais conhecida é “Ser e Tempo”, embora haja muitas outras, como por exemplo “A Caminho da Linguagem" e “Sobre o Humanismo" obras, em torno das quais, se apoia o presente livro. Professor, em que consiste a diferença entre o filósofo e o professor de filosofia?

GF:- Bem, depende do que se entende sob “professor” de filosofia. O filósofo, de algum modo, já se disse, acima, é este homem obcecado por compreender realidade, por participar da gênese do real. Se se entende “professor’ de filosofia como um repassador de doutrinas, como um ventríloquo de informações e de dados contidos nos manuais - então, em última instância, tal “professor”, do ponto de vista do pensamento, da filosofia, não vale nada, pois passa a ser só e tão só um moleque de recado. É só ventríloquo dos manuais. Mas um bom professor professa seu magistério como aprendiz de filósofo, em lendo, em aprendendo (ouvindo, escutando) com os filósofos, com os grandes essenciais pensadores. É um aprendizado de aprender, um insistente aprender a aprender. O bom professor é como, no dizer de Heráclito, a “divindade que mora em Delfos - não esconde e não escancara, mas acena”. Só acena. Aponta, acena - convida. Só isso ele, o bom professor, pode fazer, só isso lhe cabe fazer. Isso, porém, que lhe cabe e que ele pode, ele precisa fazer. Este é seu ensino, pois este é o seu aprendizado. Aprende a aprender. Um longo aprendizado. Uma longa e lenta trajetória. Só o tempo de uma vida. Aqui, mais do que nunca, o apressado come cru. Tempos, épocas de pressa, não são tempos, épocas para a filosofia, para o pensamento. Vivemos num tempo, numa época de pressa, de correria, de histeria e de resultados.

DP:- Para o senhor que é professor de filosofia há mais de 30 anos, respeitado entre alunos e mestres, o que é essa relação, - para usar os termos do livro “O Presente do Filósofo”-, de “construção conjunta do caminho do saber", ou, em outras palavras, o que é ensinar?

GF:- Se o ensinar não for o repasse de informações, mas o convite e o esforço para participar do percurso ou do caminho de geração, de gênese, do real, então, é possível acontecer esta “construção conjunta do caminho do saber”. Isso é importante: saber é caminho. Melhor: caminhar. Por outro lado, já viram e disseram (Nietzsche), saber vem de “sapio”, que é “saborear”. Saber é sabor. Assim é, se tal ‘saber” crescer e se fizer desde e como experiência, páthos (não se fala de experimento e de experimentalismo. Isso é outra coisa). Experiência, enquanto e como páthos, é, ser tocado e tomado por, afeto, afecção, é o fundamento de todo real, de toda realidade possível. Ensinar é, já foi dito acima, apontar para isso. Apontar, acenar e assim convidar. Chamado, convite à consanguinidade com a realização de realidade - gênese. Que venha quem seja capaz de atender, de ouvir a tal chamado, a tal convite. Isso é sempre uma conquista, que é coisa de só, de solidão, sem ser intimismo, sem ser solipsismo, mas abertura à transcendência, a saber, a coisa, o real.



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