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  Colunistas
Fernando Costa
COLUNISTA

 

 

As crisálidas

A vida no meio rural se carente em progresso é rica em elementos naturais. Meus dias foram renovados em experiência e beleza pela ótica infantil. Os casulos presos aos galhos das árvores me chamavam atenção. Havia curiosidade em saber o que estava escondido naquela bolsa furta-cor. Entendi mais tarde que era uma crisálida. Os ninhos dos pássaros me encantavam. As cambaxirras, beija-flores, coleirinhos, andorinhas, bem-te-vis, canários da terra, sabiás e pombos   enfeitavam o cenário e o imaginário do menino da roça. Eles tecem seus ninhos com arte e técnica de engenharia normalmente nos pés de limão ou laranja,  colmeeiras e árvores frondosas. A casa do João de Barro e o cupinzeiro são verdadeira fortaleza. Todo cuidado era pouco porque abrigava cobras venenosas. E sabem como são as crianças... As casas de marimbondos... Derrubá-las trazia mau agouro.  Fascinava-me as teias de aranha. Vinham da copa das árvores até o chão.  Se a tocássemos corríamos o risco de uma ferroada. As cigarras eram maravilhosas. Sons e algazarra. E as tanajuras? Apareciam entre a primavera e o verão. As formigas davam lições de organização e previdência. Eu apreciava os besouros, depois soube que eram os coleópteros.  O cultivo de abelhas era especialidade do tio Pedro irmão de mamãe e marido de tia Sebastiana. Possuía dezenas de caixas e se o enxame se dispersasse ele esfregava assa peixe, capim cidreira ou usava fumaça na caixa para evitar que elas o ferroassem. Quando uma galinha sumia, estava a chocar seus ovos. Uma ninhada viria embelezar o terreiro.  Tínhamos criação de vacas para o leite ou corte.  Mamãe, minha irmã Marina e auxiliares fabricavam o queijo artesanal para o uso caseiro e parte ao comércio. Só em pensar a saudade bate forte e sinto vontade de chorar. Não havia tempo para a maldade porque a criança se ocupava com afazeres sadios tais como a colheita de manga, goiaba, caqui, jabuticaba, abiu, lima, carambola, amora, pitanga, jambo, jamelão, tamarindo, ingá, grão de galo, marianeira, caju, banana, graviola e sem agrotóxicos. Descer morro a baixo na canoinha de coqueiro, arremessar mamona, brincar de teatrinho, ir às missas e ladainhas, enfeitar os andores, o altar, as coroações, o presépio e ouvir as histórias que mamãe e tio Aparecido casado com tia “Titita” contavam faziam parte de minha vida. À noite ao retornarmos da igreja ou visitas não sabíamos se contemplávamos o céu iluminado por estrelas ou vaga- lumes. Meu desejo era ter nas mãos os pirilampos e de perto admirar sua luz.  Andar a cavalo em pelo é de triste memória! O atropelamento aos quatros anos, a queda causada pelo quadrúpede e o corte na testa quando bati contra o banco da cozinha integram minha história. Alguns pescavam. Banho de rio nem pensar! Nossos pais eram cuidadosos, nada de filhos em porta de botequins. Nem se falava a palavra cigarro! Bebida? Somente sucos, grapete, crush ou guaraná. Cerveja ou vinho eram bebidas para adultos. A massa dos pastéis era esticada com garrafas. Eu gostava muito das festas de Cosme e Damião realizadas em casa. A mesa repleta de deliciosos doces feitos por Martha Gomes, mamãe, tia Sebastiana e  Alfredina. Cantávamos, rezávamos e comíamos. As festas na Fazenda Duvivier estão gravadas em meu ontem menino. Nós nos reuníamos em minha casa, na tia Sebastiana ou na Fazenda Piabanha. Outra distração eram as sessões de cinema levadas pelos religiosos em colégios e exibições na Fazenda da Boca do Fogo. Bons tempos que têm nome: saudade.

 



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