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  Colunistas
Frederico Amaro Haack
COLUNISTA

 

 

O CÓRREGO SECO EM 1531. Parte 1

Duzentos anos após o Descobrimento é que começou a aberto, em 1702, o “Caminho Novo”, estrada mais próxima e definitiva que deveria ligar o Rio de Janeiro ás Minas Gerais, passando pelo Córrego Seco. Todas as Estradas e Bandeiras que do Rio se dirigiam ás Minas, seguiram caminhos e grandes voltas no sentido de evitar a Serra dos Órgãos. Basta lembrar as primeiras viagens cujo itinerário era o trecho marítimo do Rio a Parati, e desse lugar a Pindamonhangaba para alcançar o vale do Paraíba, e descê-lo até a foz dos Paraibuna. A Serra do Órgãos ou “picos fragoso” (dos Reinel) na sua grandiosidade, sempre infundira temor e respeito aos conquistadores. Em 1662, referindo-se a estas serras, ainda escrevia Simão de Vasconcellos na sua Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil: “Pelo terreno vai rodeando toda a baia, e recôncava do Rio de Janeiro, aquela espantosa serrania, que já por vezes temos dito corre a costa toda: e com a parte dela mais áspera, chamada a montanha dos Órgãos ( porque á maneira daqueles instrumentos vão levantando em ordem desigual montes sobre montes, fazendo a altura imensa, que excede as nuvens, e chega parece á segunda região do ar) representam aqueles grandes montes muralhas, ou torres formidáveis, postas entre nós e os bárbaros que habitam a outra parte: porque ali fulmina a natureza em tempos tormentosos tais raios, coriscos e estrondos disformes de trovões que assombram a terra. Chegaram a suspeitar as nações agrestes, que estavam armados de propósito para defesa dos homens portugueses. São com tudo alegres em tempos de bonança aqueles picos inacessíveis, por sua forma, altura e formosura, revestido de verde arvoredo e arrebentando em ribeiras de água, que despenhadas dos altos cumes, vem a pagar tributos ao mar, e alegram os olhos dos moradores.”

 Tal era a impressão que dos “picos fragoso” tinha a gente daqueles tempos.

 Imagine-se agora a hipótese dos portugueses terem estado por estas alturas no remoto ano de 1531, pouco tempo depois do descobrimento das terras de Santa Cruz, e bem antes da colocação do marco fundamental do Rio de Janeiro, quando então os lusitanos resolveram instalar-se na Baía de Guanabara.

Nesse ano 1531, ao 30 dias de Abril passava pelo Rio a expedição de Martim Affonso de Souza, e, no “Diário da Navegação” de seu irmão Pero Lopes de Souza lê-se o seguinte relativo a data e ao lugar em que se achavam: “Daqui mandou o capitam I, 4 homens pela terra dentro: e foram e vieram em 2 meses; e andaram pela terra 115 léguas; e as 65 delas foram montanhas mui grandes e as 50 foram por um campo mui grande: e foram até darem com um grande rei; senhor de todos aqueles campos, e lhes fez muita honra, e veio com eles até os entregar ao capitam I; e lhe trouxe muito cristal, e deu novas como no Rio de Paraguai havia muito ouro e prata.”

Essas cento e quinze léguas de viagens pela terra, que gastou sessenta dias, e cujo trajeto foi por montanhas mui grandes, convida e exige-nos a pensar que se deu através a serra dos órgãos na direção de Minas. E nesta direção a passagem mais próxima e mais declivel era a do Córrego Seco.

Esta presunção tiveram Orville Derby e Pandiá Calogeras. Na sua “Expansão Geográfica do Brasil Colonial”, Basilio de Magalhães não acha plausível tenham esses portugueses seguido o referido itinerário, e segundo Eugenio de Casto, era essa também a impressão de Capistrano de Abreu.

 Vejamos, entretanto, as palavras dos dois primeiros historiadores. Orville Derby, em seu trabalho “Os Primeiros Descobridores do Ouro em Minas Gerais” (Revista do Instituto Histórico de São Paulo, vol. V 1899-1900) referindo-se a uma Entrada de 1552, escreveu: “É mesmo de presumir que esta entrada fosse a primeira de todas, a não ser que penetrasse, como é muito provável no território mineiro a mal conhecida expedição manda do Rio de Janeiro por Martim Afonso em 1531”. Em trabalho posteior a esse, Calogeras, no volume I de “As Minas do Brasil e sua legislação”, pg. 17, discorre: “Não é impossível tivessem chegado à zona do rio Grande e do rio das Mortes em Minas Gerais, os quatro homens mandados por Martim Afonso de Souza, em 1531, a explorar o interior da costa do Rio de Janeiro. Pela narração de Pero Lopes, sabe-se que percorreram 115 léguas, sendo 5 por serras muito grandes e 50 pelo campestre, levando dois meses na viagem. Não parece provável ser essa distância a da penetração real no interior. Isto levaria ao dobro a distância total percorrida, 230 léguas, portanto, palmilhadas em 60 dias com uma velocidade diária de quatro léguas, sem contar descanso e permanência junto aos chefes das tribos encontradas; rapidez demasiada, tendo-se em conta que estes homens percorriam paragens pela primeira vez trilhadas por europeus, mesmo admitindo-se, como é natural, o terem seguido os emissários um antigo caminho dos índios. A época em que se fez a entrada em princípio de Maio, logo após a estação chuvosa, não podia, as 115 léguas como percurso total da expedição, que teria assim entrado umas sessenta léguas pela terra a dentro, a reconstituição do roteiro só se pode fazer por tentativas. Era natural seguisse vias estabelecidas pelos indígenas segundo as diretrizes naturais do terreno. Quem, defrontando a barra do Rio de Janeiro, quer traçar uma normal á costa, direção típica para quem deseja internar-se, os pontos que primeiro depara são os fundos da baía, no ponto onde atualmente se acham as vilas de Suruí, Magé, Pilar e outras não é desarrazoado, portanto, admitir tivesse a investida por ponto inicial qualquer dessas duas balisas naturais, a foz de Pilar e da Estrela, o primeiro mais provavelmente, e levando ambos ás culminâncias da serra do Mar, na vertente onde hoje se ostenta Petrópolis.



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