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  Colunistas
Frederico Amaro Haack
COLUNISTA

 

 

RUA DOUTOR NÉLSON DE SÁ EARP

A Rua de Bourbon, que aparece na Planta de Reymarus (1851) e até 1854, não passava de um risco e nome no papel, havia era apenas um atalho, pelo meio da Mata Atlântica primordial, que subindo uma montanha, levava da Rua do Imperador ao Largo de Dom Affonso, utilizado pelos colonos que evitavam transitar pelo Quarteirão Vila Imperial. Em 1854 começa o desaterro da montanha, para abertura da rua, cuja terra retirada serviu em parte para aterrar o pântano que existia no Largo de Dom Affonso (Praça da Liberdade). Do piso de terra batida, passando pelo calçamento a Mac Adam, pelo calçamento a paralelepípedos, que só veio se concluir em agosto de 1952, até o capeamento asfáltico atual, que se deu 1992, foram 138 anos do logradouro que mais trocou de denominação em Petrópolis. Foram quatro nomes e todos, em sua época, adotados pelos cidadãos, praticamente sem resistência. A Rua de Bourbon dos tempos imperiais foi Rua Cruzeiro em 1889 no fervor republicano, 1930 e a Revolução getulista a fazem Rua João Pessoa. Apenas a 6 de novembro de 1989 define-se Dr. Nélson de Sá Earp, através da Lei nº 4.672.

Em 1858 a Rua de Bourbon era ainda de terra e recém-aberta, principalmente para os padrões de tempo da vida oitocentista. À sua margem, alguns chalés espaçados, ao centro de jardins e dois ou três sobrados. Na esquina com a Rua do Imperador, do lado direito de quem parte desta, havia um salão de bilhar, que era o nº 1 da rua, no nº 2 alugava-se um escravo através de “reclame” no “O Paraíba” de 18 de julho. Ao nº 12 ofereciam-se como modistas as irmãs Paulina e Luíza Forest e no nº 19 havia a primeira casa funerária da cidade, pertencente ao Sr. José Schaeffer. No princípio deste ano de 1858, o topo da rua seria rebaixado mais um pouco, e aterra retirada serviria, desta vez, par aterrar outro pântano que havia no final da Rua do Imperador, onde temos a Praça da Inconfidência hoje.

A iluminação pública durante o período imperial era precária, havia poucos lampiões a óleo de baleia e apenas no lado que dá para a Rua do Imperador, do outro, para o Largo de Dom Affonso, nenhuma iluminação. A rede elétrica do Banco Construtor foi , como em toda o Quarteirão Vila Imperial, instalada em 1897, assim como as lâmpadas da iluminação pública, em postes de ferro pintados de preto. Durante as primeiras décadas do século XX, a então Rua Cruzeiro se viu cercada de chalés, bangalôs e sobrados em todo seu lado ímpar, no lado par, bem no topo, um terreno vazio marcava a subida do Morro do Imperador, local de vista privilegiada e de passeios da sociedade petropolitana. Na virada do século, justo em 1900, a rua, bem arborizada, abrigava a oficina de gravação dos irmãos Sieber, famosos gravadores em vidros e cristais. Em 1926 se inaugura a Casa Cruzeiro, então uma padaria, ao lado do chalé onde ainda residia a família Schaeffer e no prédio nº 245 residia o engenheiro Miguel na esquina da rua que hoje leva o seu nome.

Na década de 1930 a conjuntura política é radicalizada, entre a esquerda socialista e a direita fascista e estes escolheram a então Rua João Pessoa para sede da Aliança Integralista Nacional, bem no sobrado sobre a Casa Cruzeiro, já então não mais padaria, porém casa de ferragens Exatamente a 9 de junho de 1933, de madrugada, é ferido à faca, na Avenida XV de Novembro (Rua do Imperador) o jovem integralista Matheus Hang, durante briga com aliancistas (ALN – Aliança Libertadora Nacional – socialista). No dia seguinte, um domingo à tarde, acontece um comício aliancista na Praça Dom Pedro II) após o comício em passeata seguem em direção à Rua João Pessoa e, portanto, à sede dos integralistas. Lá chegando, aos gritos e palavras de ordem, os aliancistas, operários em sua maioria, são recebidos à bala pelos integralistas entrincheirados em sua sede, há muitos feridos, inclusive mulheres, operárias ou esposas e filhas de operários, um é mortalmente ferido, Leonardo Candu. Levado ainda com vida, falece ao chegar ao Hospital de Santa Teresa.

Nesta década de 1930 foram erguidas as últimas residências para os lados da Praça da Liberdade, porém a quase totalidade dessas primeiras edificações foi gradativamente demolida e substituída por edifícios de até dez andares, sendo o primeiro o Edifício Cruzeiro nº 241, em 1941, seguido do edifício Russel, que ocupou no final da década de 1940 o terreno do demolido chalé da família Schaeffer, também são construídas as últimas residências para o lado da Praça da Liberdade. O derradeiro trecho da rua a ser calçado a paralelepípedos o foi em 1952, ia do nº 400 ao nº 1.000, completando-se assim toda a pavimentação. Nesta década de 1950 continua o processo de demolição de prédios antigos e construção de edifícios, o que se estende até a década de 1990, quando já pouco resta do casario original e das árvores nada mais resta.

Em 24 de março de 1950 consuma-se o crime que ficou conhecido como o “crime da João Pessoa”. É morto a foiçadas o desembargador Dr. Antônio Joaquim Cordovil Maurity Filho, o crime ocorre às 20 horas na residência à Rua João Pessoa, cometido pelo jardineiro da família, um negro forte. A viúva surge nos jornais da época com alguma suspeição, mas nada é comprovado e Walter Rosa, o negro, é condenado.

No sobrado que existia ao nº 91, o qual por último abrigou dois restaurantes, em 1984, abandonado, foi invadido por moradores de rua liderados pela desequilibrada mental Maria José Corrêa, de 37 anos então, a “Mariza Soares” que dizia ser seu nome artístico, pois afirmava ser irmã da cantora Elza Soares. Realizavam-se sessões de canto e “strip-tease”, jogavam garrafas de bebida pelas janelas e faziam muito barulho, espetáculos que, claro, incomodavam aos moradores próximos, até que a polícia resolveu o caso a 13 de maio de 1984, prendendo todo mundo. O sobrado acabou também demolido e em seu lugar mais um grande edifício.

A última denominação desta rua, que se inicia na Rua do Imperador e termina na Praça da Liberdade, veio pela Lei 4672, de 6 de novembro de 1989, de autoria do vereador Dr. Marcos Antônio Moreirão. É homenagem ao médico e político Dr. Nélson de Sá Earp, membro de uma família que deu mais dois nomes à nomenclatura urbana de Petrópolis: seu pai, Arthur de Sá Earp e seu irmão, Arthur de Sá Earp Filho.

O Dr. Nélson de Sá Earp nasceu a 3 de maio de 1911, filho do Dr. Arthur de Sá Earp e da Sra. Arabela Silva de Sá Earp. Aos 16 anos ingressou na Faculdade Nacional de Medicina, na praia Vermelha, no Rio de Janeiro, onde se formou em 3 de outubro de 1932. Foi, em Petrópolis, médico da Fábrica Santa Helena e da Companhia Petropolitana de Sedas, por falecimento de seu pai, o substituiu, como médico, nas fábricas Dona Isabel e Cometa, no Alto da Serra. Dirigiu os serviços cirúrgicos e obstétricos do Hospital Santa Teresa, chegando a diretor do mesmo. Foi o vereador eleito mais votado nas eleições de 1948, sendo também o presidente da Câmara, abriu mão de seus subsídios da vereança a favor de casas de caridade. Foi prefeito de Petrópolis no período de 1959 a 1962, restaurando a economia e as finanças municipais, fortemente comprometidas após as obras realizadas por seu antecessor, Dr. Flávio Castrioto, no centro da cidade. Construiu escolas e pontes, calçou inúmeras ruas mas teve a deslustrar o seu mandato o projeto, quase executado, de demolição do Palácio de Cristal, para a construção de um centro esportivo municipal, em 1960. Casado com a Sra. Amélia Maria de Sá Earp, cujo matrimônio durou 54 anos, tiveram sete filhos: padre Ney, Arthur Leonardo, Maria Cecília, Maria Angélica, Antônio Carlos, Pedro Paulo e Maria Gabriela. Faleceu em 2 de maio de 1986, de infarto, aos 74 anos de idade, em meio a uma palestra que estava a proferir, sobre a dor, na Universidade Católica de Petrópolis.

 



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