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  Colunistas
Frederico Amaro Haack
COLUNISTA

 

 

RUA DOUTOR PORCIÚNCULA

Teve como denominações anteriores: Caminho do Palatinato e Toneleiros. E é conhecida popularmente por “Rua da Estação”.

O Caminho do Palatinato, assim como depois a Rua de “Toneleiros” denominavam os caminhos nas duas margens do rio Palatinato. em 1883 inaugurou-se a Estação Ferroviária, nas margens esquerda do rio. A região, até então, era um subúrbio, parte inicial do Quarteirão Palatinato Inferior, ao qual conduzia. Eram dois caminhos de terra batida depois calçados pelo sistema de Mac Adam. Macadamisados, cercados de poucas construções e muito mato. A Rua de Toneleiros, digamos, se afasta do Quarteirão Palatinato Inferior, quando da construção da Estação de Petrópolis da Ferrovia Príncipe do Grão-Pará, cuja inauguração se deu a 18 de fevereiro de 1883, e com isso inicia-se a construção de prédios para hotéis, bares e restaurantes, em seu então lado par. A estação torna-se a marca do logradouro.

Em sua edição de quarta-feira, 14 de agosto de 1883, o jornal “O Mercantil” nos fala: “... às 9 h. da manhã de domingo (11) chegou a locomotiva da Estrada de Ferro Príncipe do Grão-Pará, pela primeira vez à estação desta cidade, conduzindo Sua Majestade o Imperador e grande número de passageiros vindos da capital. O belo edifício da estação estava graciosamente embandeirado e a população acorreu ao sítio, entusiástica e jubilosamente. A banda do “Congresso Filarmônico 15 de Março” saldou a vinda do povo”. Uma semana depois ainda “O Mercantil” noticiava a inauguração oficial no domingo, 18 de fevereiro de 1883: “...conduzindo o trem os Imperadores e a família Imperial, grande comitiva, além dos Engenheiros: Lisboa e Coutinho, os diretores da companhia, Michel e Pandiá Calógeras e Miguel Detzi, que tomaram parte ativa na construção, tendo a Banda de Música da Casa Imperial abrilhantado a festa”. Preços das passagens Rio-Petrópolis na inauguração da estação: 7$500 1ª classe; 6$000 2ª classe.

Um ano e pouco depois, a 30 de abril de 1884, inaugurou-se um busto de bronze do barão de Mauá na sala de espera da estação, na presença deste, que havia sido conduzido, pela primeira vez, a Petrópolis, pela ferrovia neste dia. O presidente da Companhia, Engenheiro João Martins da Silva Coutinho, em curto discurso - iniciado com a lembrança de que naquele dia 30 de abril, há 30 anos, Mauá inaugurara a primeira Estrada de Ferro construída no Brasil - disse dos esforços do mesmo e dos capitais despendidos para trazer até o interior da Província do Rio de Janeiro os trilhos da linha férrea pela serra da Estrela. Idoso, visivelmente comovido, Irineu Evangelista de Souza, já visconde, com grandeza do Império, agradeceu em belo discurso. Muitos anos permaneceu ali o busto, até que a “Grão-Pará” deixou de ser uma empresa nacional, desaparecendo ele para lugar ignorado. Junto com o Império foi-se a Estrada de Ferro Príncipe do Grão-Pará. Com a República chega a britânica “The Leopoldina Railway Company”.

Na virada de século XIX para o século XX o consumo de aguardente de cana já era alto: no número 12 da rua, o Café e Bar de Nogueira e Rabello e Cia. pagava à PMP o imposto devido por três pipas de aguardente a cada 10 dias.

Em 1926 a Rua Dr. Porciúncula ainda funcionava em duas pistas, com a estação ferroviária e o rio Palatinato a separá-las. No lado par, o lado da estação, havia: no nº 26 a “Flora São José de Itaipava”; nº 30 a relojoaria Suíça de Otto Jerke; desde o nº 28 até ao 56 a portaria, o restaurante e padaria do Hotel Comércio e sobre estas lojas o Hotel Comércio propriamente dito, que foi inaugurado em janeiro deste ano. Prédio de três andares, cujo proprietário era o Manoel Cuntin Gill. Ainda deste lado, mas na calçada da estação, estacionavam ainda os “tílbures” de tração animal e os novos carros de praça, com motor a gasolina, ambos à espera dos passageiros que chegavam no trem da manhã vindos do Rio e, do trem da tarde, vindo de Minas, ambos com a proverbial pontualidade britânica: às 9h e às 16h, diariamente. Ainda na calçada da estação estava o ponto terminal dos bondes elétricos e junto à calçada do Hotel Comércio, começavam a fazer ponto final os ônibus do Rio. O lado esquerdo, na outra margem do rio, possuía em 1926: ao nº 25 o Armazém Primor, de Joaquim Pires Júnior; nº 35 a Padaria América, que inaugurou melhoramentos em maio deste ano; do nº 39 ao 47, Nogueira Filho e Cia., Carpintaria, Serraria e Materiais de Construção; nº 103, Companhia de Transportes e Mercadorias, marítimas e terrestres, seguros etc.

Às 22 horas de 11 de agosto de 1926, em frente ao Hotel Comércio, o conhecido vendedor de jornais Emíglio Gravina, por motivos que não ficaram esclarecidos, deu cinco tiros de garrucha no antigo carregador nº 6, João Dias, vulgo João Candomblé, ferindo-o gravemente.

Em 19 de janeiro de 1933, como toda pompa e circunstância, é lançada a pedra fundamental da nova Estação Ferroviária, quando se comemorava o cinqüentenário da chegada dos trilhos a Petrópolis, porém a nova estação só foi inaugurada em 1938. No mesmo ano que em setembro a Rua Doutor Porciúncula perde sua pista do outro lado da estação, que passa a denominar-se Rua Doutor Caldas Viana assim, mais do que nunca, torna-se a “Rua da Estação”.

As partidas e, principalmente, as chegadas dos trens vindos da capital eram os grandes momentos diários da rua. Cidade onde apenas o transporte terrestre é possível, os trens e com o passar do tempo, os ônibus, são a seiva. É por eles que chegam as novidades e os modismos, em um tempo onde o rádio era o senhor das comunicações e a televisão, um invento distante. Era pela Doutor Porciúncula que as “cocotes” e os “almofadinhas” circulavam à espera de alguém ou por pura faceirice. As chegadas do imperador e depois dos presidentes da República cercadas de pompa e circunstância, eram sempre muito concorridas, centenas de pessoas se acotovelavam nas calçadas, outras tantas enchiam os restaurantes e cafés, bandas executavam hinos e dobrados, o povo sempre aplaudia, entusiasticamente, aos visitantes. Ao tempo da estrada de ferro e da Estação Ferroviária e até a década de 1950, quando até então o transporte rodoviário era temerário, lento e cansativo, os trens eram a democracia sobre rodas, embora em vagões separados, ricos e pobres eram despejados na estação à Rua Doutor Porciúncula, com uma pontualidade que se tornou cada vez menos rigorosa com o passar dos anos.

1964 viu os trens deixarem de subir a serra, uma era que havia começado em 1883 terminava, para Petrópolis e para a Rua Doutor Porciúncula, em especial. Outra era, a do transporte rodoviário, que começara precariamente, em 1926, tomava lugar definitivo. Durante mais de uma década, já sem os trens, os ônibus intermunicipais estacionavam na Rua Doutor Porciúncula, sem nenhum conforto para os usuários enquanto a velha Estação Ferroviária se deteriorava sem conservação, até que o relógio na torre da estação, marco desta, parasse definitivamente. Em 19 de dezembro de 1970 foi inaugurada solenemente a Rodoviária Imperatriz Leopoldina, onde se erguera a Estação Ferroviária da Leopoldina, cujo prédio foi em parte aproveitado. Com a presença do governador do Estado Jeremias de Mattos Fontes, o prefeito Paulo Rattes inaugurou a nova e primeira estação rodoviária da cidade, às 18 horas, com a Banda do 1º BC abrilhantando o ato.

A Rua Doutor Porciúncula com o tempo se deteriorou, em parte pela decadência geral, em parte pela perda de importância do transporte coletivo, em tempo de transporte individual pelas elites. Hoje temos em uma extremidade a Casa Itararé, remanescente dos tempos dourados das décadas de 1940/50, do outro, mercados populares de gêneros alimentícios, frutas, legumes. Resta ainda o Hotel Comércio e a Padaria de mesmo nome, com seu tradicional relógio, desde a década de 1920, marcando as horas, melhor sorte do que o da estação.

 



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