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  Literatura

Hans Ulrich Gumbrecht desfia a prosa da vida e da obra de Diderot

 


 Reprodução

Haveria um fio condutor minimamente compreensível para percorrermos, em ordem cronológica, obras tão diversas de Denis Diderot (1713-1784) como a Carta sobre os cegos, os Salões ou o Sobrinho de Rameau, que parecem ter sido escritas por autores bem diferentes? É esta questão, inerente ao elo entre a vida e a obra do iluminista, que Hans Ulrich Gumbrecht persegue em Prosa do mundo: Denis Diderot e a periferia do iluminismo, lançamento da Editora Unesp. Neste livro, nas palavras do próprio autor, ele busca descrever o “estilo intelectual” do iluminista a partir da constatação que sempre incomodou seus biógrafos: a “ausência de uma identidade estável”.

“A prosa de Diderot desperta em muitos leitores a sensação de simpatia – mas, mesmo assim, parece esquivar-se a qualquer tentativa de uma descrição abrangente”, anota Gumbrecht, na apresentação da obra. “Por inúmeras vezes, o problema me levou quase a desistir de um livro que eu não precisava escrever e que ninguém (a não ser Bohrer) queria particularmente que eu escrevesse. Num desses momentos de hesitação, durante um período em que ambos estávamos realizando pesquisa em Berlim, o famoso pianista Alfred Brendel fez notar, de passagem e em público, que eu lhe fazia lembrar Diderot. Era uma afirmação demasiado forte, claro, mas registrei também – e não apenas em silêncio – que Brendel havia explicitado o que eu, durante tantos anos, nem ousara sonhar. O embaraço e o orgulho que se seguiram transformaram-se no impulso para uma segunda questão de Diderot, a questão de saber se o meu mais do que cinquentenário sentido de afinidade com o escritor não se teria tornado, entretanto, num intenso caso da mais vasta – e crescente – atração dos intelectuais do século XXI por Diderot.”

Gumbrecht empresta de Hegel a noção de “prosa” – a saber, tudo o que escapa dos conceitos e, assim como o fenômeno da vida, diz respeito à finitude, à mutabilidade e à autocontradição – com o intuito de versar sobre a “prosa do mundo” de Diderot. Os leitores são, dessa maneira, apresentados a um Diderot que se encontra, paradoxalmente, no coração do movimento Iluminista e à margem deste. Por isso, ao retratar esse indivíduo sempre em movimento rumo a uma certa “periferia”, Gumbrecht consegue combinar erudição e criatividade: supera as divisões disciplinares e, sem abrir mão do rigor exegético, identifica as ressonâncias entre o estilo singular de Diderot e as produções de Goya, Lichtenberg e Mozart. Mais do que um comentário voltado a especialistas, trata-se aqui de um esforço apaixonado para entender como é possível que a prosa de Diderot, cuja origem remonta à França do Antigo Regime, tenha chegado aos leitores do século XXI tão plena de vivacidade.

“Talvez Denis Diderot tenha sido precoce em muitos aspectos”, pontua o autor. “Por exemplo, enquanto jovem estudante na adolescência ou, olhando a partir da nossa perspectiva histórica, em certos modos de pensar e de escrever – mas, aparentemente, ele nunca teve pressa. O fluxo do tempo e as promessas do futuro não o distraíram dos inúmeros objetos, problemas e pessoas pelos quais se interessava. Por isso, ele parecia aos seus contemporâneos uma pessoa ativa, produtiva e generosa e quase não se preocupava em dar aos acontecimentos e às condições da sua vida for- mas delimitadas ou de situações claramente circunscritas.”

Sobre o autor – Hans Ulrich Gumbrecht é Professor Emeritus em Literatura da Universidade de Stanford e Presidential Professor de Literatura Românica da Hebrew University, em Jerusalém. Pela Editora Unesp, publicou Depois de 1945: latência como origem do presente (2014) e Nosso amplo presente: o tempo e a cultura contemporânea (2015), além de ser coorganizador do livro Reinhart Koselleck: Uma latente filosofia do tempo (2021).



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