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  Colunistas
José Luiz Alquéres
COLUNISTA

 

O TERCEIRO PILAR DA NACIONALIDADE

Os artigos anteriores trataram já de dois dos pilares da formação da nacionalidade brasileira ou melhor, luso-brasileira, tamanha é a influência do componente lusitano na formação do nosso ethos.

O primeiro pilar é o da sociedade civil em conjunto com a institucionalidade governamental portuguesa, que se organiza após a restauração do mando português sobre o território brasileiro em1840. Temos aqui a figura emblemática de Salvador de Sá, Governador do Rio de Janeiro, Almirante dos Mares do Sul, que integrou o corpo governamental tanto na época em que o Brasil era submetido ao monarca ibérico (luso-castelhano) como também depois de Portugal reassumir seu domínio. Interessante observar que Salvador de Sá chegou então à curiosa situação de ser apoiador da presença dos holandeses no Brasil para, em seguida, ser incumbido de organizar a esquadra que a partir do Rio rumou para Angola com a missão de lá expulsar os invasores holandeses, no que teve pleno sucesso.

O segundo pilar é a fé. A figura histórica que melhor o ilustra é o Padre Antonio Vieira, um dos grandes intelectuais do Século XVII e um verdadeiro símbolo da presença de vida intelectual no Brasil. Ele foi um defensor dos portugueses contra os protestantes holandeses. Foi também inimigo da Inquisição, protetor dos índios, dos judeus e dos cristãos, além de ser um ardoroso defensor do Brasil perante a corte portuguesa, o papado e as cortes europeias. Tendo tamanho destaque, foi incumbido pela coroa portuguesa para negociar com a Holanda a retirada dos invasores que haviam se instalado no nordeste brasileiro – o que resultou no pagamento de um polpudo “resgate” para os batavos (ainda que aqui, nos trópicos, os combates entre invadidos e invasores fossem travados com ferocidade).

O terceiro pilar é a sociedade mestiça, sem preconceito racial em sua grande parte, este Brasil que emerge de relações entre a casa-grande e a senzala, entre colonizadores e índios e a grande descendência de portugueses, como Caramuru e João Ramalho, e suas dezenas de mulheres índias... Este é o Brasil que mesmo já tendo chegado o século XIX é retratado na obra “O Guarani”, de José de Alencar. Não demorou muito, a obra vira uma ópera sob a batuta de Carlos Gomes. Ali vemos o índio Peri apaixonando-se pela fidalga Ceci.

Este mesmo componente de integração racial aparece com nitidez na reconquista do nordeste dos holandeses, na qual alguns episódios de tal interação se refletem na camaradagem nascida nas guerras, que fortalecem os laços de amizade entre os homens que lutam juntos por interesses ou ideais em comum.

Destacamos em particular dois episódios: O primeiro é a marcha épica do sargento-mor Luiz Barbalho, do Rio Grande do Norte até Salvador da Bahia. Desembarcado no Rio Grande do Norte com poucos víveres após a derrota da esquadra do Conde da Torre frente à esquadra de Nassau, ele marchou com seus 1.500 soldados, juntamente com os integrantes negros comandados por Henrique Dias, até Salvador para reforçar a defesa da cidade. Foram 2.000 km em 4 meses, cerca de 16 km por dia, ou seja, uma façanha heroica naqueles tempos. Acossado por holandeses e índios hostis enfrentou três ou quatro batalhas no caminho, onde derrotou e fez prisioneiros holandeses.

Tempos depois, como retribuição, foi nomeado Governador do Rio de Janeiro onde, sendo forasteiro, ganhou da Câmara Municipal o aluguel de uma casa para lhe servir de residência, criando assim uma tradição peculiar no Rio de Janeiro que permanece até nossos dias: quase nenhuma cidade oferece residência a seu Prefeito. Nesta marcha a soldadesca reforçada pelos índios amigos compartilhou sofrimentos , privações e vitórias nas batalhas o que reforça a camaradagem e a igualdade entre os homens,

O outro episódio – na realidade um conjunto deles – também bélicos, são as batalhas do Monte das Tabocas (taboca é um bambu de grosso calibre que existe no Nordeste) e as duas batalhas dos Guararapes, cujas vitorias luso-brasileiras marcaram o fim do domínio espanhol e o surgimento do exercito permanente de origem multiétnica, porém integrado, brasileiro. Nele os brasileiros e portugueses de André Vidal de Negreiros e João Fernandes Vieira, os índios de Felipe Camarão e os negros de Henrique Dias lutaram juntos, fraternais, e criaram na sua classe militar superior uma identidade brasileira mais forte do que à da origem de seus membros.

A importância da liberdade na luta pela sua terra se vê no ato de João Fernandes Vieira libertando seus escravos para juntarem-se às tropas como homens livres. Durante séculos o exército teve o seu regimento henriquino, formado só de negros, assim como vemos em várias épocas despontarem oficiais superiores que se orgulham de seus antepassados índios, como o grande Marechal Cândido Rondon e, mais recentemente, o Vice-presidente da República, general Hamilton Mourão.

A nacionalidade brasileira se forja decididamente neste século XVII que é o século também do esplendor da atividade canavieira como o anterior havia sido da atividade extrativista do pau-brasil. No século seguinte, o Brasil irá começar a se urbanizar com a descoberta das minas de ouro.

 



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