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  Colunistas
José Luiz Alquéres
COLUNISTA

 

 

QUE É A TERRA ?

O título do artigo é a pergunta que os cientistas, em meados do século dezoito, mais se faziam e debatiam nas sociedades científicas e nos salões cultos. Embalado pelos fortes estímulos trazidos pela conjugação de vários fatores, como a descoberta de novos continentes, o progresso na compreensão do espaço sideral conforme explicado por Galileu, a crescente aceitação da cosmovisão deística de Newton (Deus como governador e matemático), ou da alternativa de Leibniz ( Deus seria apenas o criador das leis que regem o universo e que desde então o abandonara à sua sorte), o homem se põe a estudar, descrever e explicar o funcionamento da Terra em bases científicas. Usa para isso uma série de instrumentos que desenvolve para ver melhor, medir e calcular. Usa a matemática intensamente.

Surge então a seus olhos uma nova Terra. A antiga era, na visão adotada até então, aquela apresentada no Gênesis, o primeiro livro da Bíblia. O Reverendo Usher havia diligentemente calculado a genealogia de Adão e chegado à precisa idade da criação do homem como 4004 AEC ( antes da era comum) o que, sempre segundo a mesma fonte , levaria a idade da Terra para 6000 anos, já que Deus havia criado o homem no 4o dia e os anos divinos valeriam pelo menos quinhentos dos nossos.

Isso pareceu muito estranho para um francês estudioso dos mares e das rochas em torno do Mediterrâneo. Grande orientalista e embaixador do seu país no Egito, De Maillet passou sua vida desenvolvendo a teoria que a terra teria emergido dos mares, já com seus vales e montanhas, e continuaria neste processo de emersão, na razão de 90 cm por ano. Ele teve sua obra publicada em 1748, umas duas décadas após a sua morte, o que foi prudente pois a datação consequente diferia daquela da Biblia, o que em alguns lugares poderia significar uma sentença de morte para êle. Segundo ele alguns animais, como os peixes voadores que respiravam no ar e na água, passaram a viver em terra e suas nadadeiras evoluíram para patas. Menos de 10 anos depois, o Conde de Buffon, aquele que escreveu os 127 volumes de sua História Natural, descrevendo toda flora e fauna da Terra, no primeiro volume trouxe uma idéia muito interessante sobre a criação da terra, tentando conciliá-la com a cosmovisão de Newton, de quem era amigo e admirador.

Segundo ele um asteróide de enormes dimensões teria se chocado com o sol e do choque teriam surgido os planetas que então, pelas leis descobertas por Newton, passaram a girar em torno do sol. Esses planetas, massas incandescentes, levariam alguns milhões de anos para esfriar. Ele mediu a razão da dissipação do calor e estimou a partir do tamanho da Terra, da temperatura dos vulcões e da temperatura das fontes de águas termais, usando os termômetros, então uma novidade, o tempo que ela estava a esfriar e o que ainda demandaria até seu esfriamento total. Da condensação do ar ao longo deste processo de esfriamento, teriam surgido as águas e os oceanos, que erodiram a terra. Já vimos no outro artigo, que ele defendia Deus ter dado a cada animal a sua individualidade própria, ou seja não era um evolucionista. Sua ousadia de contrariar o livro bíblico no tocante a datação da Terra teve que ser objeto de uma retratação pública, o que ele fez no fascículo 4 , e assim pode escrever os 123 posteriores.

Um escocês James Hutton, foi o próximo a afirmar que a terra era resultado de um processo contínuo, cujo início era desconhecido e cujo fim, indeterminado. Nesta altura o divórcio entre ciência e revelação divina estava plantado, mas o ambiente de tolerância às idéias nos países mais avançados, já permitía que estas coisas se estudassem. Naturalmente não era o caso de Espanha ou Portugal.

Surge então , nesta altura das coisas, vinda de um mundo até então pouco presente no ambiente científico, o pensamento onde o conhecimento da Terra em vez de ser proposto a partir do universo para Terra, o é no sentido inverso. É a escola de mineralogistas alemães, ou seja estudiosos práticos mas também formuladores teóricos, focados no estudo da formação dos depósitos de minérios de ferro, abundantes na Alemanha, especialmente na Saxônia.

A grande figura é Abraham Werner ( 1749-1817). Já não estávamos limitado aos quatro elementos: ar, água, fogo e terra de Aristóteles. Na terra se distinguiam os sais, os metais os sulfúricos (que devemos compreender como os ácidos) e os alcalinos. Por experimentações conduzidas, muitas na escola de Mineralogia de Freiburg, testou-se o comportamento destas terras usando toda forma de mistura, ação da água e da temperatura procurando entender como estes minerais reagem entre si e o tempo que estas reações duram. Sempre tendo a experimentação o duplo sentido teórico-prático, tão peculiar aos alemães que vai xaracterizar o chamado "Wissenschaft", conhecimento baseado na experimentação, que será um paradigma da universidade de Berlin.

Os estudos de Werner trouxeram o conceito do diferencial de idades das rochas e minerais, sendo que a sua consolidação se deu em quatro idades. A mais antiga é das rochas cristalinas em amálgama com alguns metais . Em seguida definiu-se as chamadas rochas de transição. A terceira idade é a das rochas da época da estratificação, hoje chamadas metamórficas, seja por ação química ou mecânica ( terremotos em conjunto com vulcões, etc ). Por fim a quarta época é a época dos depósitos sedimentares decorrentes da erosão das rochas precedentesm, por ação da água de chuvas e mares.

Ao final do século XVIII estava bem claro para os cientistas que a Terra era parte de um amplo sistema que vinha sendo formado por um conjunto de forças naturais, ao longo de muitos milhões de anos, as quais estavam sendo progressivamente descobertas pela ciência. Foi o tempo tempo que navegantes, botânicos e exploradores percorriam todas as
regiões do mundo e traziam testemunhos de rochas , de animais e de vegetais e começaram a se generalizar museus de História Natural.



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