Edição anterior (2289):
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021
Ed. 2289:

Capa

Compartilhe:

Voltar:

HOJE

Edição anterior (2289): segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Ed.2289:

Compartilhe:

Voltar:


  Colunistas
José Luiz Alquéres
COLUNISTA

 

 

Júlio Verne e a Ciência

A vida de Júlio Verne é extremamente profícua como escritor. Entre 1852 e 1919, ele escreveu mais de 80 textos, entre peças de teatro, novelas e romances. Sua vida é marcada pela parceria com seu editor, Hetzel, que por muitos anos teve grande influência em sua produção literária.

Após um início pouco promissor em matéria de vendas, Júlio Verne encontrou, como diríamos hoje, um nicho. Era uma forma inovadora e especial de literatura, meio aventuresca e com relatos de viagens e descobertas. Isto seduziu um público específico. Mentes curiosas e sequiosas de conhecer o mundo.

Em um de seus famosos livros, publicado em 1865, "Da Terra à Lua", o autor fez um relato fantástico de uma viagem à Lua empreendida por três pseudoastronautas. A narrativa detalhada compreende, inclusive, a fundição de um enorme de canhão de lançamento no interior de uma espécie de poço profundo na Flórida onde, cerca de um século mais tarde, veio a ser construída a base de lançamento de foguetes de Cabo Canaveral. No livro, os dois artífices que empreenderam tal construção eram engenheiros rivais, desempregados pelo fim da Guerra Civil Americana. Eram, cada um, especialistas nas técnicas de romper blindagens ou de fazê-las impenetráveis. Verne incluiu um terceiro personagem, mais cômico, para fazer um ponto de leveza na trama. Tratava-se de um espirituoso francês (como o autor), com suas típicas tiradas engraçadas, dentre as quais se destaca sua resposta ao ser perguntado como fariam para regressar da Lua, caso lá chegassem: "Ora, isso é o de menos. Para quem já encontrou um meio de ir, a volta é fácil!" - disse ele.

Poucos anos após a publicação do livro, em 1870, o sentimento de todos franceses sofreu um rude golpe. Pela Avenida dos Champs Elysèes, marcharam as tropas alemãs até o Arco do Triunfo e acamparam no Bois de Boulogne. Vencedores da Guerra de 1870, os alemães anexaram ao seu território as regiões da Alsácia e Lorena, resultando na criação do II Reich (o segundo império). Este, para completar a humilhação francesa, foi fundado pelos alemães nos salões do Palácio de Versailles, criando um Império sob a forma de federação.

Após a partida dos alemães, os franceses voltaram à reconstrução do seu país, processo que deve começar sempre pela mudança da mentalidade derrotista e da depressão compulsiva. Para isso, Hetzel concebe, o governo francês apoia, e Verne dá um tom renovador ao ensino prático da ciência. Seus livros passam a mostrar a enorme capacidade do homem - apoiado pelo conhecimento científico - em vencer grandes desafios.

São náufragos perdidos em uma ilha que fabricam os artefatos necessários para garantir sua sobrevivência sob a orientação de um engenheiro. São narrativas de viagens que incorporam sempre um meio novo de transporte, tal como uma moderna jangada; ou uma casa que se desloca sobre rodas, movida a vapor (hoje seria uma espécie de ônibus/trailer para camping), ou mesmo um balão, no qual são embarcados russos e ingleses durante cinco semanas.

Tais aventuras nunca exploram o belicismo em uma Europa recentemente saída de uma guerra e já prestes a entrar em outra. Verne testemunhou tal conflito em seus derradeiros anos. São livros antiescravagistas, embora condescendentes com um imperialismo civilizador, como aquele preconizado no poema famoso de Rudyard Kipling, o "Fardo do Homem Branco". Os projetos narrados são frequentemente transnacionais e, mesmo em uma aventura infantil de crianças naufragadas (em "Dois Anos de Férias"), o final é harmonioso entre os filhos de franceses e os de ingleses.

O conteúdo científico e descritivo de ciências da natureza tem muito realce em "Vinte Mil Léguas Submarinas", que praticamente cria o submarino moderno, movido a eletricidade. Em "Robur, o Conquistador", descreve um objeto que seria como um avião, mais pesado do que o ar e movido a eletricidade. Em "O Doutor Ox" (e em muitos outros), despretensiosamente vai passando conceitos da física, da química, da metalurgia e de toda gama de invenções, até mesmo de uma espécie de televisão rudimentar no livro "O Castelo dos Cárpatos".

Seus heróis são movidos por nobres sentimentos. Seus bandidos normalmente se regeneram e, não raro, a presença de um bufão como Passepartout, de a "A Volta ao Mundo em 80 dias", mostra o talento do homem de mil expedientes, geralmente um francês.

Verne fez muito por levar a ciência ao quotidiano da juventude francesa, libertando-a da exclusividade da herança humanística, da recitação de poemas e do suspirar nas tragédias de Racine.

Um século antes, os alemães já haviam iniciado esforço igual com o seu pietismo reconciliador das divisões entre calvinistas e luteranos, a formação de um exército federal, e a criação da Universidade de Berlin por Humboldt (irmão de Alexandre, o naturalista), consagrando o espírito do "Wissenschaft", conhecimento derivado da experiência.

Não sendo cientista, Júlio Verne fez pela ciência na França (e também no mundo) mais do que muitos cientistas - e realçou a importância da mentalidade no redirecionamento de políticas nacionais bem sucedidas.

A França, junto aos aliados, não sossegou enquanto não venceu a revanche na Guerra de 1914, embora viesse a ser fragorosamente derrotada em 1939. Guerras não fazem bem aos povos, decididamente.    

 



Edição anterior (2289):
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021
Ed. 2289:

Capa

Compartilhe:

Voltar:

HOJE

Edição anterior (2289): segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Ed.2289:

Compartilhe:

Voltar: