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  Saúde

Os riscos da compulsão alimentar

Transtorno pode causar obesidade, propensão à diabetes e problemas cardiovasculares

Jaqueline Gomes

 

O mundo vive atualmente uma situação sem precedentes. A pandemia do novo coronavírus trouxe, além da doença grave, estresse, ansiedade e insegurança. Em função disso, algumas pessoas usam a comida como válvula de escape e acabam sofrendo com a compulsão alimentar, que é caracterizada pela ingestão exagerada de alimentos, em curtos espaços de tempo.

 Retratado pela primeira vez em 1959 e incluso no Manual de Diagnóstico e Estatística das Doenças Mentais (DSM) em 1994, esse transtorno alimentar atinge cerca de 2,6% da população mundial, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, 4,7% da população, o dobro da porcentagem mundial, sofre de transtorno alimentar — mais recorrente entre jovens de 14 a 18 anos.

De acordo com o médico da Medicina Integrativa Dr. Lucas Costa Felicíssimo, a compulsão alimentar tem causa multifatorial, mas também costuma surgir a partir de aspectos e sentimentos negativos. 

- Dessa forma, o indivíduo recorre ao alimento, já que durante a ingestão, há liberação dos hormônios que proporcionam bem-estar e prazer. Porém, depois de se alimentar, a pessoa tende a se sentir culpada pela atitude, o que não a impede de continuar nesse ciclo vicioso – explica o médico. 

 Esse é o caso da estudante Rafaela Silva. A adolescente de 17 anos conta que o transtorno começou quando se preparava para sua festa de 15 anos, onde ela engordou 5 kg em um mês.

- Eu fiquei muito ansiosa porque queria que a minha festa fosse perfeita. Com isso, comecei a comer muitos doces, principalmente chocolate. Acabei engordando 5 kg em um mês, e aí o desesperou aumentou. Quanto mais eu tentava emagrecer, mais eu engordava e mais vontade de comer a toda hora eu sentia. Foi desesperador – contou.

Rafaela precisou de uma equipe multidisciplinar para resolver o problema que, até hoje precisa ser controlado.

- Procurei uma nutricionista, mas, sozinha não conseguia me controlar. Então, ela mesma me indicou uma psicóloga para ajudar no tratamento. Além disso, tive quer ir a um endocrinologista também, pois minhas taxas de colesterol e glicemia ficaram desreguladas. Outra coisa que tive que fazer foi exercícios físicos. Até hoje eu tenho acompanhamento desses profissionais, pois, ainda sofro com o transtorno. Esse ano em especial está sendo muito difícil para mim, por conta da pandemia. Estou tendo crises de ansiedade, medo de tudo, de ir à academia. Aí, além de não me exercitar como deveria, ainda acabo comendo mais – relatou a adolescente.

Outra que sofre com o transtorno é a professora Janaina Oliveira, de 32 anos, que já ganhou 13kg neste período de pandemia.

- Com a suspensão das aulas por conta da pandemia eu acabei ficando sem a rotina de ir trabalhar. Com isso, acabo comendo sem horário certo e várias vezes ao dia. Tudo pra mim é motivo para comer. Já aumentei 13k nesse tempo, chegando a pesar 80kg, e estou preocupada. Porém, não consigo parar de comer, principalmente doces – lamenta.

Além de ser um problema que afeta a mente e a autoestima, as pessoas que sofrem com compulsão podem ter maior tendência à obesidade, já que o transtorno favorece o ganho de peso, afirma o médico Lucas Costa Felicíssimo.

- O risco de desenvolver doenças cardiovasculares, diabetes, problemas de sono, infertilidade e dificuldade na hora de interagir com outras pessoas também é maior – alerta o especialista.

Dessa forma, o tratamento é feito à base de medicamentos e também do acompanhamento conjunto entre nutricionista, psiquiatra e psicólogo. “Apoio de amigos e familiares é importante, mas o paciente não deve deixar de procurar ajuda profissional. É uma mudança intensa de hábito que requer um trabalho interdisciplinar para que funcione”, explica o especialista.

Apesar de não serem todos os pacientes que expõem a compulsão como uma maneira de aliviar o estresse e a ansiedade, há evidências de que a compulsão alimentar está relacionada com transtornos psicológicos e de humor.

- A partir do momento que a pessoa sofre de compulsão alimentar, ela tende a perder o controle da linha entre fome e saciedade e por isso é tão difícil de resistir aos impulsos quando eles surgem - explica o médico, que aponta que para o diagnóstico da doença, o paciente deve apresentar, pelo menos, um episódio por semana.

Dentre os comportamentos comuns que podem denunciar a presença do transtorno segundo a DSM estão: comer rapidamente, comer até se sentir cheio, ingerir grandes quantidades de comida mesmo quando não há fome, preferir comer sozinho por se constranger com a quantidade de comida presente no prato e sentir repulsa de si mesmo, depressão ou culpa após a compulsão. 

 



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