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  Colunistas
Reinaldo Paes Barreto
COLUNISTA

 

 

A Cozinha e o Cozinheiro (2)

Terminei o blog da semana passada com Luis XIV e sua corte em Versailles e menção a um dos primeiros grandes chefes da coleção francesa: François Vatel -- e o dramático suicídio.

Como aconteceu? No norte da França, vivia o Príncipe de Condé (Luís de Bourbon), militar brilhante, general francês que lutou durante a Guerra dos Trinta Anos,  mas que ainda jovem (33 anos) se viu enterrado em dívidas. Planejou, então, uma estratégia para fazer com que não só ele -- mas toda a província -- ficasse livre daquela “pindaíba”: convidar ninguém menos do que o rei — e cerca de 3000 cortesãos – para passar um fim de semana suntuoso, pantagruélico e divertido (caça, intrigas, boa mesa e bebedeiras -- o de sempre!) no seu Castelo de Chantilly.

 O banquete p/ Luis XIV em Chantilly

 

Informar que a Ilustração foi tirada do blog Mundo Gastronômico

Talvez por tédio de sua Versailles, talvez por espírito de aventura, Sua Majestade aceitou.

E qual a lógica da jogada? Se o Príncipe conseguisse cair nas graças do rei por conta dessa “mordomia”, toda a região seria salva do desastre e ele, Condé, o mais endividado, talvez pudesse comandar as tropas francesas na guerra contra a Holanda, já declarada. E como em toda guerra, se não morresse, recuperaria as suas finanças.

Bingo!

Mas ele sabia que só um homem poderia preparar um banquete olímpico, capaz de seduzir Sua Majestade e os mais próximos do monarca: FRANÇOIS VATEL. O mágico das receitas, o insuperável criador de molhos (criou o creme “chantilly” - um creme de nata batida, doce e perfumada com baunilha.), um artista da culinária ... mas vítima de um temperamento bipolar e neurótico. Vatel aceitou o convite e começou a preparar o monumental e “cinematográfico” espetáculo gastronômico que duraria três dias, mas cujo apogeu seria no sábado, 23 de abril de 1671.

 (Brilhantemente interpretado pelo Gérard Depardieu, aqui na FOTO)

Vatel, “comme d´habitude”, atirou-se por inteiro à missão. Chegou a véspera do dia (noite) do grande banquete, uma Sexta-Feira da paixão e Vatel -- que já ia para a décima terceira noite sem dormir, cuidando obsessivamente dos preparativos, constatou –  que as carroças apinhadas de peixe de que necessitava não tinham chegado.

O menu desse banquete principal seria filé de linguado, anchovas, melão com presunto de Parma, lagosta com molho de camarão, pernil de carneiro, pato ao molho de vinho Madeira e, de sobremesa, bombas de morango.

Entrou em pânico, desesperado: tentou contato com quase todos os fornecedores de outros portos da França, mas o mau tempo daquela tarde reteve os pescadores em alto-mar e nenhum “peixeiro” tinha linguado, ou lagosta, ou camarão – nada.

Transtornado, teria exclamado: “não suportarei mais essa desgraça”. Dirigiu-se então ao seu quarto, onde se trancou e se matou, jogando-se várias vezes contra uma espada colocada “em riste”, na porta, até furar o coração.

 Vatel morto contra a sua espada

Poucas horas depois – cependant -- dezenas de pescadores começaram a trazer as cargas de peixes e, afinal, no dia seguinte, realizou-se um luxuoso e impecável banquete para o rei e 600 convidados selecionados. Consta que o monarca e a corte – et le tout Paris nos dias que se seguiram – souberam do “acidente” mas não deram maior bola. E, naquela noite, jantaram alegremente...

PS: não consegui em parte alguma apurar se o príncipe Condé conseguiu comandar os exércitos franceses contra a Holanda -- e/ou se recuperou as suas finanças.

Quem souber, por favor escreva.



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