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  Colunistas
Reinaldo Paes Barreto
COLUNISTA

 

 

Vinho viaja mal

Sou um apreciador de vinho com sorte: já visitei verdadeiras “catedrais” do vinho, com sedes-museus, como a Quinta da Bacalhoa; sedes-palácios como Margaux ou o castelo mandado construir para Napoleão, em Épernay (da Moët & Chandon); vinícolas com sede de arquitetura inesperada e arrojada, como a Marqués de Riscal, em Rioja; com mesa de jantar dentro da vinícola (tantas) e, também, pequenas plantações com uma sede-vinícola simples, mas um saboroso restaurante com comida regional, como a Dal Pizzol no Rio Grande do Sul.

 Foto: Marqués de Riscal
 Foto: Vinícola com restaurante dentro da adega

Por isso mesmo (ou todavia), me faço sempre a pergunta que compartilho com vocês: até que ponto o contexto da prova pode influir na nossa avaliação de um determinado vinho? Ou seja, quando a gente está de (eno) férias e vai visitar uma vinícola/cantina, (como essa, em Budapeste) e tantas outras, mundo afora, os vinhos (nos) parecem néctares soberbos ou simplesmente deliciosos, a ponto de comprarmos um par de garrafas — ou de caixas — no embalo da emoção. Finda a vilegiatura, contudo, chega-se em casa, vai-se provar aquele vinho que nos empolgou e… não é a mesma coisa.

 Foto: vinícola de Tokay 

Por que? A resposta já vem embutida na própria pergunta (o contexto da prova). Nessas ocasiões, no embalo “easy going” das férias, o primeiro movimento, instintivo, é de gostar das coisas novas e as vinícolas mais badaladas criaram verdadeiras máquinas de marketing para cativar o provador.

E nesses casos (palácios, etc) todo o décor “contamina o voto”:  caves subterrâneas, pipas do tamanho da pirâmide de Queops, taças que parecem vitrais da Catedral de Chartres e aonde há sempre um(a) enólogo(a) “da Casa” que é treinado para dar a sensação que o enólogo é você! Aí, vêm os pequenos goles, um balcão ou muito rústico ou moderníssimo, a iluminação, os aromas — a paisagem no entorno  como essa, esplêndida, na ilha de Santorini, na Grécia, que produz um branco com a casta-emblema assyrtiko: vulcânico, seco mineral e frutado. E tudo induz ao encantamento. E, este, ao excesso!

Moral da história: corra-mundo, vá, visite, curta as eno-excursões mas… pegue leve. Compre duas, três garrafas e deixe para fazer uma aquisição parruda quando chegar “em casa”, no distribuidor conhecido ou na Deli vizinha. Pior ainda se você for visitar um pequeno produtor, principalmente de vinhos “bio” (orgânicos ou biodinâmicos): a probabilidade do transporte (quase sempre por avião) alterar um ou mais elementos do vinho é imensa.

Por essa razão e em tempos anteriores à globalização, em que as distâncias marcavam mudanças sensíveis, palpáveis tanto de aparências quanto até de comportamento, se dizia que “vinho e mulher viajam mal”.

Do vinho, já vimos o porquê. E da mulher recordo dois exemplos passados há muito tempo e que hoje não ocorreriam, estou certo. A primeira, de uma morena monumental (tipo caricatura do Lan) que foi minha colega da Faculdade Nacional de Direito (e de quem o meu Reitor, Franchini Neto, dizia que ela não era um avião: era uma frota aérea!) e que foi me visitar em Paris, quando eu morava lá, no inverno. Coitada: parecia um travesti. De gorro masculino, um sobretudo de cossaco, botas pretas de soldado alemão... E, no contrario senso, também conheci uma parisiense que era directrice do Hotel Bristol: uma charme de filme francês. Se movia pelos salões feito uma garça pousando no espelho d´água... Pois a encontrei numa praia em Búzios, de biquíni: magra, branca, andando capenga na areia ... parecia uma lagartixa!

Graças a Deus a vida mudou, pra melhor (nesse sentido) e, hoje, a mesma belezura em Tóquio aparece mais formosa ainda em Montevidéu ou montada numa lhama em Cusco.

Já os vinhos...



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