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  Colunistas
Reinaldo Paes Barreto
COLUNISTA

 

 

Dia Mundial do Coquetel

(Treze de maio em alguns países e dezoito em outros)

Perguntei certa vez a um dos mágicos da língua portuguesa do Brasil – Guimarães Rosa (*) -- qual o livro que mais lhe impressionou?  E ele: um dicionário! E explicou: nele, as palavras estão ali, paradas, esperando que algum bem-aventurado as convide “pra vida cá fora”. E elas podem nascer felizes, como saudade, beijo, mamãe, ou infelizes: como estupro, braguilha, escroto ... Pois eu acho que coquetel vai para o meio da lista, porque embora o conceito seja interessante - do inglês cocktail = rabo de galo pelo colorido das misturas -- em português ficou essa coisa feia. 

Aliás, já que citei o embaixador Rosa, não poderia deixar de mencionar outro embaixador, extraordinário, o Maurício Nabuco (**), autor da Drinkologia dos Estrangeiros que também pontua as misturas, os utensílios, a hora de beber...

 Drinkologia

Vamos lá:

O coquetel começou como uma bebida quase que exclusivamente preparada em bares, donde a importância de um barman, ou bartender, já que hoje é melhor não ficar definindo gêneros. E Segundo os drincólogos ou mixólogos,  designa um drinque que combina duas ou mais bebidas, sendo pelo menos uma alcoólica e à qual deve ser adicionados gelo, frutas ou ervas (aipo, hortelã), creme de leite, açúcar, etc. Ou seja, e como afirma Derivan Ferreira de Souza, no seu livro Drinks de Mestre,  é a comprovação do que – talvez por acaso - algum longínquo ancestral nosso descobriu: a fermentação de todo fruto muda o seu sabor e a sua essência.

E ainda hoje, mesmo reconhecendo que alguns amadores são bons no preparo doméstico, coquetel  “é a cara de bar”.

Ele foi inventado no final do século XIX, mas teve o seu apogeu durante a Lei Seca, décadas 1920-30, sobretudo nos EUA, como uma fórmula para, de um lado amenizar o terrível gosto das bebidas produzidas ilegalmente com álcool fabricado em garagens e, do outro, disfarçar os eventuais flagrantes dos fiscais pois parecia(m) inocentes sucos ou infusões. E o mais interessante (nenhuma surpresa) que passou a ser apreciado por homens e mulheres.

 

 mulher bebendo um cocktail

 

Nas vejamos três dos mais iconônicos entre os 62 consagrados em 1996, pela International Bartenders Association (IBA), começando pelo melhor “case” do despite acima mencionado.

 

Bloody Mary - leva vodka, suco de tomate, suco de limão, sal, molho inglês, tabasco, pimenta em pó e um talo de aipo à cavaleiro.

 

 Bloody Mary

 

Dry Martini - Segue-se o mais emblemático, cinematográfico, com repertório imenso de histórias (e anterior à Lei Seca) coquetel da história. (Até hoje o coquetel mais famoso do

mundo ocidental).

 

 Dry Martini

 

Mixology News

Ingredientes

2 partes London dry gim
1 dose de vermute seco francês
1 fatia de casca de limão/uma azeitona

Taça: de martini

Submersos: azeitona e casca do limão

Modo de preparar

Misturar os ingredientes na coqueteleira, com muito gelo. Usar uma colher de cabo longo (nunca sacudir).
Coar e derramar na taça apropriada sem o gelo.
Colocar uma azeitona. Obs.: azeitona verde não pode ser conservada em óleo nem recheada. E a casca de limão.

Obs: existem mais de 30 versões, inclusive a célebre do James Bond que entrava vodka no lugar do gim.

 

Horse`s Neck -  Outro colosso das antigas - é o preferido da minha mulher - assim chamado porque a casca da laranja cortada em espiral realmente lembra o pescoço de um cavalo.

 

 Horse`s Neck

 

Ingredientes
2/10 de brandy
– 8/10 de ginger ale
– 1 dose de Angustura bitter (opcional)
– casca de limão ou laranja
– 1 cereja.

Modo de preparar:
Descasque um limão ou laranja em forma de espiral.
Coloque uma das extremidades da espiral sobre a borda de um copo long drink, de modo que o resto da casca desça, enrolada, dentro do copo.
Monte o drinque colocando gelo quebrado no copo, depois o brandy (Jack Daniels) e o ginger ale.
Decore com uma cereja e sirva com um canudo.

Há outros, tantos, como o Negroni, Gin Fizz, Bellini, Daiquiri (das antigas), Kir Royale, Negroni (provei uma versão verde-e-amarela, com cachaça no lugar do gim: gostei!) e por falar em Brasil, a caipirinha...

 

Regras de Ouro

Seja qual for o coquetel há três regras sagradas: 1) não adicionar mais do que quatro elementos: um destilado como base, um licor ou bitter, uma água gaseificada ou gelo e um suco (ou casca) de fruta; 2) os equipamentos devem ser mantidos em condições de higiene absoluta; 3) os copos adequados.

 

Obs: um copo sujo destrói qualquer mistura.

Eu acrescentaria uma quarta “lei”: coquetel não é para acompanhar refeição. É para ser apreciado em cadeira alta de bar, com algum salgadinho ligeiro. 

E mais de três doses é porre!

(*) Quando meu pai – diplomata – voltou da República Dominicana em 1961, trouxe como era praxe e direito de funcionários a serviço do país no exterior,  um Chevrolet Impala, cinza claro, que era um espetáculo. Mas como todo “cara” da geração dele aprendeu a dirigir tarde (e, no caso dele, mal...). Eu, na época, trabalhava no IBC, na Av. Rodrigues Alves e ele no velho Itamaraty, na Mal. Floriano. Meio vizinhos. E fizemos um trato: eu o levava tipo 10h e ia pegá-lo tipo 6h30/19h.  E quem vinha de carona, quase sempre, porque também morava em Copacabana? O “Rosa”, sentado na frente, conversando comigo...

 Impala 60

(**) Maurício Hilário Barreto Nabuco de Araújo era filho do grande Joaquim Nabuco e sobrinho neto do Marquês do Recife – Francisco Paes Barreto – nosso ascendente lá longe. Era um sujeito eminentemente prático, embora fosse de certo modo um dandy (usava colete branco mandado fazer em Londres e jantava de smoking, mesmo sozinho). Mas segundo relato de outro ótimo embaixador -- Prisco Paraíso, o atual chefe do ERERIO  e a memória viva mais precisa do Itamaraty e seus personagens --  Nabuco normatizou, por exemplo, as pastas de expediente, quem era o meio de comunicação entre os departamentos da Casa, “criando”seis furinhos redondos. Primeira função: verificar se tinha algum papel dentro (e evitar que vc abrisse a pasta e o papel voasse da pasta para o chão); segunda: identificar o remetente e a urgência”de abriar a pasta ... 

Bom, e já que falei de embaixadores – e o artigo é sobre dinques – termino com um último, meu bom amigo e a quem convidei para fazer parte da nossa confraria, Os Companheiros da Boa Mesa, Sizínio Pontes Nogueira, que dizia: “a gente entra para o Itamaraty com a missão de dar the life for the Country. O perigo é ter que dar “the liver”...

Saúde! (Nestes tempos, com redobrado trocadilho).

 



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