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  Colunistas
Reinaldo Paes Barreto
COLUNISTA

 

 

Menos é mais (1)

Com grande alegria e interesse, participei esta semana (7/9/20) de um Papo na Rede, no Instagram, a convite da @anaramalhojornalismo, minha querida amiga de toda uma vida.

Assunto: uma foto ¾ da gastronomia no Rio ao tempo da Colônia, depois no Reino, no Império, nos anos 1920 e até a pandemia. E um olhar para o que pode vir pela frente uns meses depois da vacina.

Obviamente, resumirei para os que não assistiram.


 O Rio de Debret

Pano de fundo: até D. João VI, a corte e mais cerca de 15 mil portugueses desembarcarem por aqui em março de 1808, o Rio parecia uma cidade oriental. Confusa, mal cheirosa, com uma infra-estrutura péssima, mulheres sentadas no chão fazendo cestos ou vendendo pequenos objetos de artesanato e escravos africanos (mal) vestidos com poucas roupas ainda de suas nações de origem. O rio contava 46 ruas mal traçadas – e muito sujas. E cerca de 50 mil habitantes (mais os que chegaram).

Comia-se na rua ou na clássica trilogia do três C – Casa, Caserna, Convento.

Com a chegada da Família Real começaram a surgir melhorias imediatas: praças, chafarizes, um intendente urbano, etc. E tanto no Palácio da Quinta da Boa Vista quanto nas residências dos nobres, comia-se canjas e caldos, verduras, arrozes (com camarão, galinhas, perus), guisados e assados de carnes de pacas, carneiros, porcos, vacas, tudo acompanhado de muita cebola, alho, feijões e farinha de mandioca. De sobremesa, doces, pudins, compotas, goiabadas e marmeladas, queijo de Minas e fruta. Muita fruta. Os portugueses enlouqueceram com caju, pitanga, jabuticaba... Em junho, mês da colheita: milho.

Detalhe, com saudades de suas sardinhas da Vila do Conde (“ao pé” da Póvoa do Varzim), D. João mandou trazê-las vivas, em tanques e as soltou nos viveiros na Quinta do Cajú – aonde é, hoje, o Memorial do Carmo.


 sorveterias

O primeiro fato gastronômico dessa época é a chegada de um navio americano, vindo de Boston em 1834, trazendo a novidade: sorvete. No princípio, não agradou: “arranca pedaços da língua”, diziam. Até que alguém teve a ideia salvadora de misturar com groselha e suco de frutas. Emplacou e foi um sucesso, Formavam-se filas nas portas das poucas sorveterias que colocavam um cartaz do lado de fora, informando os horários das (fornadas???), antes que derretessem... Rebote feminista: as mulheres de sociedade, até então interditadas de circularem nos points da cidade, passaram a se incorporar às filas e socializar com os companheiros de degustação. Não duvido que tenha pintado muita paquera e até alguns casórios!

Mas o Rio-Gourmet nasceu um pouco depois, a partir de 1861, quando o Barão de Mauá inaugurou a primeira Fábrica de Gás. Ah, não precisávamos mais queimar toras de lenha... e o Rio virou notívago. As mansões do Cosme Velho, de Laranjeiras, de Botafogo, do Flamengo e da Glória agora podiam receber até altas horas, servindo cerveja preta portuguesa, vinho do Porto, vermute e licores franceses. E surgiram os saraus: declamava-se poemas traduzidos de Vitor Hugo, Musset, Verlaine, Mallarmé e as senhoras mais românticas liam M. Delly – e as mais desinibidas, Pitigrilli (O Colar de Afrodite),

Perde força o primeiro ciclo Rio-Lisboa e nasce o ciclo Rio-Paris. As pessoas “flanavam” pelas praças, parques e jardins públicos. Começaram a frequentar as confeitarias Lalé, Cavé e, sobretudo, a gloriosa Colombo (*) que nascia em 1894. E nas mesinhas de mármore, comiam-se pastéis, coxinhas de galinha, empadinhas de camarão e a estupenda doceria portuguesa.

O dinheiro circulava: os Barões do café já não mais guardavam dinheiro nos fazendas (daí o antigo Ministério chamar-se “da fazenda”) e abriam bancos. Era chique ler revistas francesas para saber “ce qui se passe là-bas” para mandar fazer as sobrecasacas e fraques masculinos, ou os vestidos das madames “à la façon”. Nem por acaso surge um pouco mais tarde o delicioso samba do Miguel Gustavo – Café Soçaite – “doutor em champanhota...troquei a luz do dia pela luz da Light ... muito merci, all right” 

Bom, e para finalizar esse primeiro apanhado de gastronomia, vale a menção ao outro eixo do entretenimento, sem perder de vista a mesa e os copos: a hotelaria. Nós já tínhamos pensões, albergues e hoteizinhos simples, como em todas as cidades do Ocidente.

Mas o primeiro a merecer estrelas (futuras, porque a Embratur ainda não os tinha constelado) foi o Hotel dos Estrangeiros, no final da atual Senador Vergueiro, fundado em 1849. Era tão elegante que oferecia aos hóspedes um telefone, que ficava na recepção. Ali se hospedavam diplomatas, autoridades brasileiras vindas à capital ou morando temporariamente aqui, como o Pinheiro Machado – onde, aliás, foi assassinado pelo Manso de Paiva.

 


 jardim interno Hotel dos Estrangeiros

Aliás, costumo brincar que este hotel foi precursor da gastronomia-pandemia: mesas ao ar livre! Sim, dispunha de um largo jardim interno aonde eram organizados jantares, alguns de gala. A Revista Brasileira, a publicação mais culta da época – inclusive com chargistas, como este que “retrata” na capa D. Pedro II dormindo (ele era diabético) --reunia ali os grandes intelectuais da época, como Machado de Assis, Raul Pompéia, Joaquim Nabuco, Graça Aranha e tantos, para os encontros sociais.


 D. Pedro dormindo

O próximo passo é o século XX, para a semana.

 



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