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  Colunistas
Reinaldo Paes Barreto
COLUNISTA

 

 

 

Napoleão e o champagne

A França e grande parte dos historiadores do mundo comemoraram “lato sensu” – ou seja, com elogios e reprovações – o bicentenário da morte de Napoleão Bonaparte, ocorrido neste último 5 de maio. E isso porque à luz de uma inevitável revisão história, a sua extraordinária presença no cenário mundial (do seu tempo) é tamanha – embora também polêmica -- que uma abrangente exposição sobre a sua trajetória e lenda(*) será inaugurada em Paris, ainda este mês (28/5).

E a curadoria é tão isenta, que reservou um espaço para a “herança sombria e molhada de sangue desse personagem complexo, cuja ascensão e queda oscilam entre o heroísmo e a tragédia, a vitória e a derrota...”

Mas cada um no seu quadrado. Além do seu fascinante destino – para o bem e para o mal – vamos nos ater aqui à relação de Napoleão com o champagne, e um dos inquestionáveis legados positivos que deixou para os amantes do delicioso espumante: o sabrage. Ou seja, a degola da “gaiola” e da rolha do champagne/espumante com um golpe de sabre.


 
  Napoleão e o champagne

Napoleão e o champagne (champagne em francês é masculino). O menino corso nasceu em Ajaccio, na ilha da Córsega, há exatos 251 anos e meio (agosto de 1769), muito, muito longe de Paris (hoje, 1h45 de voo!). Mas aos 10 anos foi mandado estudar na Academia Militar de Briènne, na região da Champagne, há mais 145km de casa! Lá conheceu um colega de sala que, por coincidência,  morava ali perto, em Épernay. Chamava-se Jean-Rémy Moet  (este computador não registra tremas, mas há um trema em cima do e de Moet e, por isso, se pronuncia o t mudo final e não “moê”) e certa vez – com pena talvez de vê-lo sozinho quando todos voltavam para suas famílias, nos fins de semana – convidou-o para passar primeiro um – depois foram vários fins de semana – “chez lui”. Travaram boa relação. Anos depois, Bonaparte já general, reencontrou Jean-Rémy, em Paris, que o convida a voltar à Épernay e  provar o champagne.



 Quadro de Napoleão visitando as caves da Chandon

Amor ao primeiro gole! Tanto que Napoleão passou a incorporar os champagnes à sua “sommelerie” (bagagens para viagens dos reis, nobres, militares, ricos) e passou a iniciar todas as cerca de 60 batalhas(**) das quais participou pessoalmente, por Épernay, para se municiar do precioso néctar. Jean-Rémy mandou contruir então um castelo, para homenagear o já então imperador. E 10 anos após a sua morte a Maison criou o “Brut Impérial”, para celebrar a memória do “amigo” que se orgulhava de ser imperador – conquista obtida pela espada – e, não, rei – resultado de herança genética.

Napoleão e o sabrage. Ansioso e apressado (Napoleão passava menos de meia-hora à mesa, nas refeições, e dormia só 4h por noite porque dizia que só era imperador acordado...), ele resolveu usar a espada para degolar os gargalos de seus champagnes (“na vitória, para celebrar; na derrota, para consolar”), a fim de não perder tempo com o (demorado?) ritual do espocar das rolhas! Mas se essa arma branca, longa - o sabre - conquistou a Europa num tempo em que os cavaleiros ainda duelavam pela honra de sua dama – ou pela sua própria -- com o tempo ela sofreu diversas modificações e, hoje, só é utilizada na esgrima moderna, que é um esporte.

Ou no sabrage.

Detalhe: nos dias atuais, o sommelier , ou o enófilo mais saliente, não têm necessidade de se arriscarem com espadas afiadas, porque o chamado Sabre-Para-Abrir-Champanha, disponível no mercado e feito artesanalmente em aço inox, e não possui fio de corte, já que a sua função é, unicamente, "expulsar" a rolha e o início do gargalo de um espumante ou de um champagne.


 
 Sabre sem fio

No Rio um dos exímios sabreurs é o sommelier Valmir Pereira, que sabe tudo de vinhos e + 10!

Observação: o champagne, ou espumante, ideal para ser sabrado é aquele elaborado pelo método “champenoise” (em francês método – méthode – é feminino), que consiste em uma segunda fermentação do vinho dentro da própria garrafa.


 O sommelier Valmir Pereira

Bom, tudo muito bonito, e tal, mas ... cuidado! Se as espadas não têm mais fio, as rolhas podem ferir:  há casos de rolhas ejetadas na cara de fregueses que ficaram machucados.

E além do mais, prudência, caldo de galinha e Moet&Chandon não fazem mal a ninguém!

(*) Até muitas décadas após a sua morte, o número de loucos nos hospícios do mundo que se tomavam por Napoleão, e imitavam o seu clássico gesto da mão apertando a barriga (para aplacar as dores da úlcera, que se transformou em câncer e o matou) só perdia para os que se acreditavam ser Jesus Cristo.

(**) A única batalha em que Napoleão “foi direto” sem passar por Épernay, foi a última ... Waterloo!



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