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Um museu é um luxo supérfluo? O impacto econômico dos museus

 


 Ronaldo Fiani
 

Algumas vezes os museus são encarados como um luxo, até mesmo como um desperdício de recursos em um país que sofre tanto em áreas tão sensíveis, como a educação e a saúde. Não obstante a comoção que o incêndio do Museu Nacional na noite do dia 2 de setembro do ano passado provocou, ouve-se periodicamente o argumento que os recursos destinados aos museus teriam uma aplicação mais urgente na área da educação, ou da saúde. Será que isso é verdade?

O argumento de que os museus seriam supérfluos em um país pobre como o Brasil é incompleto. Em primeiro lugar, porque museus têm um valor social: eles ajudam a criar uma identidade cultural e histórica acerca do que significa pertencer a uma sociedade e a um país, um efeito que é muito difícil de mensurar economicamente. Em outras palavras, ao visitarem o Museu Imperial, as pessoas tomam consciência de um passado e das raízes culturais que dão sentido ao que significa hoje ser brasileiro. Medir os ganhos econômicos que resultam daí é algo muito difícil, ainda que esta consciência seja condição para que as pessoas possam se tornar melhores cidadãos.

Mas o argumento de que os museus seriam supérfluos em um país pobre como o Brasil também é incompleto porque, ao contrário do que o senso comum supõe, os museus (assim como outros elementos do acervo cultural de um país) também possuem efeitos positivos sobre a economia do país, da região e da cidade que os abriga. Laureen Trainer, do Museu de Natureza e Ciência em Denver, Colorado, observou que para cada dólar aplicado nas instituições culturais da cidade fornece um retorno de 40 dólares para a economia local, algo sem dúvida impressionante. Ainda que estatísticas semelhantes não estejam disponíveis para as cidades brasileiras que abrigam instituições culturais de porte, já foram identificados na literatura acadêmica alguns efeitos econômicos importantes dos museus.

Em primeiro lugar, temos o efeito positivo dos museus sobre o sistema educacional. Hoje em dia há praticamente consenso que um sistema educacional de qualidade é uma precondição importante para o desenvolvimento de um país. Ocorre que a existência de museus importantes produz um salto de qualidade no processo educacional, pois eles permitem uma experiência mais completa ao tornar presentes elementos artísticos, históricos ou culturais que, se não fossem pelos museus, os estudantes e visitantes só conheceriam por texto (livros, apostilas etc.). Sem mencionar as pesquisas e convênios que os museus fazem em parceria com instituições de ensino.

Os museus também fornecem inspiração para artistas, designers e engenheiros, que buscam soluções para novos produtos, obras artísticas e até mesmo, em alguns casos, processos produtivos. Dessa forma, os museus contribuem para a ampliação daquilo que se chama capital intelectual de uma sociedade, ou seja, o conhecimento intangível que amplia a criatividade e a engenhosidade das empresas no país.

Mais imediatamente, museus atraem investimentos na infraestrutura da cidade, revitalizam as áreas urbanas onde se localizam, atraem turistas que gastam em transporte, alimentação e acomodação, sem falar na aquisição de lembranças da visita e outras demandas para o comércio local. No que diz respeito ao emprego, museus não apenas demandam mão de obra, ampliando o emprego local, como contribuem para qualificar a força de trabalho ao contratarem restauradores, especialistas voltados para a preservação e classificação do acervo, pessoal de nível superior para transcrições, traduções etc.

Com tudo isso, museus movimentam a economia local, com impactos regionais, como demonstra a franquia do Museu Guggenheim em Bilbao na Espanha. Antes do museu, Bilbao estava com a indústria em franca decadência, e assombrada pelo fantasma dos anos de terrorismo do ETA. O museu foi aberto em 1997, ao custo de 120 milhões de euros (aproximadamente 516 milhões de reais), e atraiu muitas críticas pelo seu custo, no momento que a economia espanhola sofria com uma recessão. Hoje gera uma receita para a economia local de 400 milhões de euros anuais, algo em torno de 1,7 bilhões de reais. São salários, lucros e impostos, que não apenas movimentam a economia local, mas sustentam investimentos públicos.

Reduzir investimentos em museus significa reduzir receita de impostos para a educação e a saúde, justamente aqueles setores mais necessitados. É preciso ter cuidado para não matar a galinha dos ovos de ouro.

 



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