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  Colunistas
Ronaldo Fiani
COLUNISTA

 

 

A Extensão da Crise

Vimos na semana passada que uma grave crise econômica vem se aproximando rapidamente. Talvez não haja exagero em dizer que ela já se instalou, e deve se agravar ainda mais. Alguns podem se surpreender com esse diagnóstico: há ainda uma crença difusa de que esta crise será superada assim que a epidemia da Covid-19 se estabilizar. Ocorre que esta crise é muito maior do que parece, quando se avalia a situação da economia global.

Com efeito, apesar do indiscutível impacto negativo da Covid-19 para a atividade econômica global, a amplitude do impacto varia muito de acordo com o estado da economia mundial, especialmente de acordo com a situação das economias dos Estados Unidos e da União Europeia, que são as locomotivas da economia global. O problema é que esta situação não é nada boa. Há vários problemas fragilizando as economias dos Estados Unidos e da União Europeia, dos quais destaco alguns a seguir.

Um primeiro problema é a dívida das empresas, em particular das empresas norte-americanas. Esta é uma característica que diferencia a crise atual da crise de 2008. Enquanto que naquele momento eram os bancos comerciais e outros tipos de instituições financeiras menos reguladas que os bancos (chamados de “bancos sombra”) que estavam fortemente alavancados (isto é, com elevada participação de recursos de terceiros nos seus balanços), agora são as grandes empresas que estão muito endividadas.

Matéria do Washington Post do dia 10 passado dá conta que o endividamento das empresas dos Estados Unidos como proporção do PIB aumentou de pouco mais de 30% em 1980 para 46,4% em 2018. O jornal afirma que há nada menos do que dez trilhões de dólares em dívidas das empresas que estão ameaçados pela crise provocada pela Covid-19, uma vez que essas empresas endividadas estão muito vulneráveis às expressivas quedas de vendas e de faturamento que a epidemia provoca.

Para piorar, boa parte dessas empresas endividadas tinham uma classificação de risco muito elevada, que não justificava o volume elevado de crédito a que elas tiveram acesso, algo que foi advertido pelo próprio Federal Reserve dos Estados Unidos, e por bancos como o Morgan Stanley. Como elas tiveram acesso então a este crédito? Aqui temos um segundo aspecto desta crise, que tem a ver com as políticas que foram adotadas como resposta à crise de 2008. Naquele momento e desde então, a resposta dos bancos centrais dos Estados Unidos e da União Europeia foi fornecer dinheiro e crédito abundantes e baratos para os bancos.

Esse dinheiro e esse crédito não tinham muitas oportunidades lucrativas de aplicação por parte dos bancos que os recebiam, porque desde 2008 as economias dos Estados Unidos e da União Europeia cresceram muito pouco. A consequência é que boa parte deste dinheiro acabou indo para empresas com avaliação de risco elevado.

Esse dinheiro fácil acabou também provocando uma grande valorização das bolsas no mundo, pois hoje o dinheiro circula pelo globo em alta velocidade. Essa valorização foi excessiva e, por conseguinte, irreal. Ou seja, a demanda por ações que foi alimentada pelo dinheiro fácil injetado após a crise de 2008 provocou uma alta das cotações, muito além do que seria justificado pela lucratividade das empresas. Em outras palavras, o dinheiro fácil provocou uma bolha especulativa nas bolsas. A redução dramática da atividade econômica que vem sendo causada pela Covid-19 está fazendo a bolha estourar: daí as quedas nas bolsas mundo afora, inclusive na bolsa brasileira.

Assim os impactos negativos da Covid-19 estão afetando uma economia mundial que já está em situação de fragilidade. Essa fragilidade é decorrência de profundos desequilíbrios que se acumularam nas economias dos Estados Unidos e União Europeia, após a crise de 2008, em grande medida como resultados das políticas adotadas para tentar superar aquela crise. Por isso, é preciso traçar estratégias para a economia no Brasil que tenham por base o diagnóstico de que esta crise não é uma crise passageira provocada pela Covid-19, mas uma crise profunda e global, que vai afetar a economia mundial por algum tempo.

 



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