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Ronaldo Fiani
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Reverter a Desindustrialização, Mas Olhando Para a Frente
Ronaldo Fiani
Mesmo os meus eventuais leitores que tenham nascido no século XXI provavelmente ainda vivem o paradigma de desenvolvimento que vigorou desde a segunda metade do século XX. Neste paradigma, desenvolvimento é sinônimo de indústrias operando em larga escala, concentrando grandes volumes de capital e enormes contingentes de trabalhadores. A partir deste ponto de vista, os dados sobre o processo de desindustrialização no Brasil são alarmantes.
Esta preocupação com a indústria no Brasil é compreensível e, em certo sentido justificável, quando tomamos conhecimento dos números que retratam a queda vertical da participação da indústria na produção total da economia brasileira. Matéria publicada no G1 em 21 de julho passado, intitulada “Com pandemia, indústria perde ainda mais participação no PIB e agronegócio ganha protagonismo” (https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/07/21/com-pandemia-industria-perde-ainda-mais-participacao-no-pib-e-agronegocio-ganha-protagonismo.ghtml) mostra que a participação da indústria no total e bens e serviços produzidos na economia, o seu produto interno bruto (PIB), reduziu-se expressivamente, de um máximo de 24,5% em 1985 para apenas 11,3% no primeiro trimestre deste ano, inferior até mesmo ao mínimo da série de 13,6% em 1947.
Embora estes dados sejam alarmantes, é preciso ter cuidado ao extrair conclusões dos números. Tenho visto alguns jornalistas afirmarem que a indústria no Brasil está “encolhendo”. Na verdade, trata-se de uma proporção, portanto, o que provavelmente está acontecendo é que outros setores, especialmente o agronegócio e os serviços estão crescendo mais rapidamente que a indústria, o que resulta na redução de sua proporção no total de bens e serviços produzidos na economia, o PIB.
Isto, contudo, não minimiza o problema que significa a perda de importância da indústria para a economia do país. Um dos principais problemas é que, dependendo do segmento, a indústria é um importante agente produtor de inovações tecnológicas, isto é, de novos bens e de novas técnicas de produção. São estas inovações que geram lucros e salários elevados para o capital e os trabalhadores que participam das inovações, o que contribui para elevar a renda da economia como um todo. Sem inovações, a renda da economia se reduz, a população empobrece e a arrecadação fiscal cai. Sociedade e Estado ficam com menos recursos.
Mas por que a renda de uma sociedade diminui sem inovações? O problema é a concorrência. Quando uma tecnologia amadurece ela se torna amplamente conhecida, o que faz com que novos competidores surjam no mercado, especialmente no mercado internacional. Pense na indústria têxtil. Empresas produtoras de tecidos no Brasil têm de competir com tecidos produzidos no Paquistão e Bangladesh, onde os trabalhadores não têm a proteção que desfrutam aqui, e os salários são baixíssimos. Tudo isto porque a tecnologia têxtil é tradicional e, assim, é fácil o ingresso de novos competidores de baixo custo. A única forma de competir é reduzindo a margem de lucro e pagando salários mais reduzidos. A renda da economia como um todo acaba diminuindo, se a maior parte da indústria for deste tipo que emprega tecnologias tradicionais.
É isto que vem acontecendo com a indústria brasileira: pressionada por competidores internacionais de baixo custo, que não protegem seus trabalhadores e o meio ambiente, ela vem enfrentando dificuldades para crescer, mesmo quando o câmbio encarece os produtos importados.
Já setores tecnologicamente dinâmicos são setores com poucas chances de acesso por parte de empresas em países menos desenvolvidos, pois suas tecnologias são de difícil assimilação por quem não possuir profissionais de elevada qualificação, universidades de ponta e institutos de pesquisa altamente gabaritados. Isto reduz seus produtores a um pequeno e seleto grupo, gerando um oligopólio e reduzindo a concorrência, o que eleva significativamente a margem de lucro das empresas e o rendimento dos profissionais que trabalham nelas. Se houver muitos segmentos industriais com estas características, a renda de economia como um todo se eleva.
Por isto temos de trabalhar para reverter a desindustrialização no país, porém, o caminho não é investir novamente em indústrias tradicionais que enfrentam competidores de baixo custo (por conta da falta de proteção aos seus trabalhadores e ao meio ambiente), e que por conseguinte sofrem com uma lucratividade reduzida. O caminho é investir nas novas indústrias do século XXI, a chamada revolução industrial 4.0, para nos colocarmos no seleto grupo dos países produtores de tecnologia de ponta deste século.


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