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  Geral

Uma mulher morre a cada dois dias por aborto no Brasil

Interrupção de uma gravidez teria sido uma das principais causas do assassinato de comerciante, planejado e executado por sua própria filha

João Vítor Brum, especial para o Diário


 Dados do Ministério da Saúde dão conta de que, em apenas uma década, duas mil mulheres morreram por abortos induzidos que deram errado no Brasil. Em Petrópolis, uma mulher morreu no ano passado após uma folha de mamona ter sido introduzida em sua vagina para interromper sua gravidez. O assunto voltou a ser discutido nesta semana, quando foi realizada uma audiência de instrução do caso do assassinato de Dircelene Botelho, planejado e executado por sua filha, Paloma Vasconcelos, com o namorado, Gabriel Molter (FOTOS). A assassina alega que um dos motivos do crime foi sua mãe tê-la obrigado a abortar, em 2017.

No Brasil, o aborto induzido é considerado crime contra a vida humana, previsto pelo Código Penal desde 1984, com pena de um a três anos para a mãe que causar o aborto ou que dê permissão para que outra pessoa o cometa. A abortista que realizar o procedimento pode pegar de um a quatro anos de prisão, e, quando o aborto induzido é provocado sem o consentimento da gestante, quem provocá-lo pode ser sentenciado de três a dez anos de reclusão.

O aborto não é qualificado como crime em apenas três situações: quando a gravidez representa risco de vida à gestante; quando a gestação é resultado de estupro; ou quando o feto for anencefálico, ou seja, não possuir cérebro. Nos casos, o aborto legal é realizado com respaldo do governo, através do Sistema Único de Saúde.

Mesmo sendo ilegal, o Ministério da Saúde estima que um milhão de abortos induzidos sejam realizados anualmente no Brasil. Há técnicas caseiras, cirurgias realizadas em clínicas clandestinas, entre outras formas de se interromper uma gravidez.

Ainda de acordo com o órgão, os procedimentos inseguros de interrupção voluntária da gravidez levam à hospitalização de mais de 250 mil mulheres por ano, cerca de 15 mil complicações e cinco mil internações de muita gravidade. O aborto inseguro causou a morte de 203 mulheres em 2016, o que representa uma morte a cada 2 dias.

Em Petrópolis, duas mulheres deram entrada em unidades de saúde do município com complicações relativas a abortos nos primeiros meses de 2019. Em todo o ano passado, também foram registrados dois casos.

Uma mulher, que realizou um aborto quando tinha apenas 17 anos, contou ao Diário um pouco sobre a experiência.

- Eu engravidei quando ainda estava na escola, com 17 anos, e fiquei sem reação. Quando contei à minha família, todos ficaram em choque e, com auxílio da minha mãe, encontrei uma clínica que realizava o procedimento na cidade. Foi tudo muito rápido e não tive complicações, mas sei que muitas mulheres não têm essa sorte, principalmente por não terem a condição financeira confortável de minha família - disse.

- Não tenho orgulho de ter tomado essa decisão, mas sei que não tinha capacidade de cuidar de outra vida na época, e acredito ter feito o melhor para todos os envolvidos. Hoje, quase uma década depois, tenho uma filha de seis anos e faço tudo por ela, mas levo essa lembrança comigo - disse a mulher, que pediu para não ser identificada.

Uma outra mulher, de 54 anos, que também solicitou que não fosse identificada, realizou um aborto induzido quando tinha 28 anos e conta que se arrepende da decisão até hoje.

- Na época, eu e meu então namorado, com quem casei, achamos que não podíamos ter um filho. Fomos juntos à uma clínica e realizamos o procedimento, mas aquilo nunca saiu de nossa cabeça. Até hoje tenho sonhos com isso, algo que levarei comigo por toda a minha vida - contou.

Aborto foi pivô em caso de assassinato que chocou o país

Em junho de 2017, a jovem Paloma Vasconcelos realizou um aborto induzido em Cabo Frio, na Comunidade do Jacaré, acompanhada da mãe, a comerciante Dircilene Botelho, que foi friamente assassinada pela filha e seu namorado, Gabriel Molter, em outubro do ano passado, na casa da família no Bingen.

A filha, que planejou e executou o crime, alega que um dos principais motivos do assassinato foi exatamente o aborto, que, segundo ela, foi ideia da mãe. Entretanto, Paloma admitiu, em seu interrogatório realizado em uma audiência nesta semana, que ela e seu namorado concordaram com a realização do procedimento.

Na audiência já citada, membros da família de Paloma e de Gabriel falaram sobre o caso, incluindo o aborto, mas com histórias diferentes. O padrasto da jovem alegou nunca ter ouvido falar no assunto, e a família do rapaz disse ter ficado sabendo do caso apenas após o aborto ter sido realizado, mas com versões diferentes entre si.

Gabriel, em seu depoimento, disse ter ficado sabendo da gravidez depois de Paloma ter abortado, fato negado por sua então namorada. Segundo ela, o namorado sabia desde o início e a acompanhou na viagem para realizar o aborto, e apenas não foi com ela à clínica clandestina pois a abortista permitia apenas um acompanhante, que foi a mãe.

Após o procedimento, já em Petrópolis, Paloma sofreu com fortes hemorragias, sendo internada no Hospital Santa Teresa dias após o aborto. Ela ficou uma semana internada, realizou diversos procedimentos e correu, inclusive, risco de morte, além da possibilidade de ter o útero retirado.

Na audiência já citada foram apresentadas capturas de tela da rede social Facebook, em uma postagem de 2016, em que Paloma se mostrava a favor de abortos. Questionada, ela explicou a mudança de posicionamento.

- Eu era a favor de abortos para mulheres como minha mãe, que não nasceram para ter filhos. Considerava isso melhor do que colocar uma criança no mundo sem receber amor. Mas eu, por outro lado, sempre sonhei em ter filhos, queria ter quatro, inclusive, e não queria ter esse sonho interrompido - disse a jovem no depoimento.

Mesmo usando a interrupção da gravidez como motivação para o crime, há relatos de Paloma dizendo que "só seria feliz caso a mãe estivesse morta" antes do fato acontecer.

Há uma diferença de 14 meses entre o aborto e o assassinato de Dirce. Quando questionada sobre porque não se mudou da casa da mãe ou resolveu a situação de outra forma, Paloma não soube explicar, de forma plausível, o motivo pelo qual esta foi a única opção.



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